Segundo muitos estudiosos, música e dança acompanham o povo brasileiro desde sua constituição social, funcionando como forma de amenizar tensões geradas pela diversidade de atores envolvidos nesse processo e como facilitador na adaptação de um modelo social europeu ao contexto tropical.
Vinculado ao Carnaval, o frevo retrata conflitos e embates vividos desde a segunda metade do século XIX, o que ajuda a compreender seus múltiplos sentidos históricos e sociais.

1. O entrudo: Raiz dos Festejos Carnavalescos

Frevo: história, identidades e manifestações culturais

Você conhece as modalidades do frevo?02:32:42

Aprenda a dançar frevo em apenas 12 passos
O entrudo é a forma mais antiga do carnaval popular na Península Ibérica e nas colônias (séculos XVI–XIX). Era uma festa de rua em que pessoas brincavam lançando água, lama, farinha, ovos e, por vezes, objetos sujos umas às outras.
Caracterizava‑se pelo anonimato, pela desordem festiva e pela inversão de normas sociais: homens e mulheres misturavam‑se, usavam máscaras e participavam de brincadeiras que podiam tornar‑se agressivas.
Trazido por portugueses ao Brasil, o entrudo influenciou as origens do Carnaval local. Inicialmente consistia num jogo de arremesso de limão‑de‑cheiro entre grupos ou indivíduos, acompanhado de gracejos e comidas. Registros do início do século XIX mostram que a prática estava bem enraizada na vida colonial.
Ao longo do tempo, porém, o divertimento degenerou: o limão foi substituído por urina, frutas podres, lama e outros dejetos, e as brincadeiras passaram a marcar e a segregar espaços urbanos, gerando problemas de ordem pública e de saúde. Esses excessos levaram, no século XIX, a proibições e regulações que abriram caminho para formas carnavalescas mais organizadas.

2. Recife e a Formação do Frevo
Na cidade de Recife, esse percurso culminou no esboço do frevo. Inicialmente menos frenético, o frevo ganhou forma a partir das bandas marciais e fanfarras e pela presença dos capoeiras — grupos de homens, negros ou mestiços — que, à frente das bandas, disputavam interesses diversos, inclusive políticos.
A destreza nas lutas e os novos saltos criados pelos capoeiras, ao som das bandas, influenciaram diretamente a criação dos passos do frevo de rua.

3. Da Luta à Coreografia
A repressão policial aos capoeiras fez com que golpes fossem camuflados em movimentos coreográficos, dando origem a nomes próprios para os passos: dobradiça, parafuso, tesoura, tramela, alicate — termos emprestados do universo do trabalho.
Esses nomes também batizaram os primeiros agrupamentos de frevo, como os clubes pedestres (hoje clubes de frevo).

4. Perfil dos Agrupamentos Iniciais
Os clubes pedestres surgiam, em geral, do cais do porto e da estiva.
Seus integrantes eram negros forros, prestadores de serviço dos bairros de São José e Santo Antônio, marinheiros e prostitutas — gente simples que buscava distração, lazer ou confronto.
Em contraste, a elite promovia grandes bailes chamados mascaradas, e desfiles como os clubes de Alegorias e Críticas e o Corso.

5. Expansão Social: Chegada à Classe Média
O frevo, nascido no meio proletário, alcançou a classe média por volta de 1920 com o bloco carnavalesco misto, espécie de agremiação semelhante aos ranchos natalinos, formada por famílias da pequena burguesia e com maior participação feminina (inclusive em corais).
As orquestras desses blocos — “pau e cordas” — tocavam inicialmente tangos, choros e árias; aos poucos incorporaram frevos, com melodias que transitavam entre o lirismo, a saudade e a homenagem a personalidades do gênero.

6. Participação Feminina e Nomes Populares
Os clubes pedestres, pilares das agremiações, eram inicialmente masculinos; a presença feminina foi-se incorporando gradualmente por meio de grupos identificados por ofícios (Quitandeiras, Engomadeiras, Verdureiras) ou por reputação marginal, como as Ciganas Revoltosas — frequentadoras de ruas centrais do Recife (Rua do Fogo, Rua da Guia, Beco do Veado, Rua das Águas Verdes).

7. Troças e Clubes de Bonecos
Troças são agrupamentos populares carnavalescos tradicionais, principalmente no Nordeste do Brasil, que desfilam em ruas e bairros com caráter festivo, muitas vezes improvisado.
Além dos clubes pedestres e dos blocos mistos, o sistema carnavalesco do frevo incluía troças (vindas de vários bairros e periferias, organizadas ou improvisadas) e clubes de bonecos, geralmente nomeados em homenagem a carnavalescos, personagens ou fundadores.

8. Considerações Finais
O frevo permanece em construção: imprevisível e transgressor, erudito e popular, entre tradição e contemporaneidade.
Sua pluralidade e singularidade o constituem como patrimônio cultural imaterial.
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