Engenhos de Pernambuco: História do Início ao Fim

Engenhos de Pernambuco em resumo

  • Início: a produção de açúcar começou com a capitania de Pernambuco, entregue a Duarte Coelho em 1534, e Pernambuco tornou-se a capitania mais próspera do Brasil.
  • Onde ficavam: sobretudo na Zona da Mata, perto do porto do Recife, de rios e de matas para lenha.
  • Como eram: casa-grande, capela, senzala, fábrica (a “moita”) e canaviais, além de horta, pomar e casa de farinha.
  • Século XVII: a ocupação holandesa (1630–1654) destruiu engenhos; no entanto, Maurício de Nassau tentou reerguer a produção.
  • Século XIX: chegam a máquina a vapor (1817) e os engenhos centrais (1884); por isso, começa a concentração da produção.
  • Século XX: as usinas substituem os engenhos banguês, e a maioria dos antigos engenhos é abandonada ou demolida.

Fonte principal: este artigo baseia-se em grande parte no trabalho de Anna Cristina A. Ferreira (2010) sobre os engenhos de açúcar de Pernambuco, incluindo trechos adaptados do seu texto e a fotografia do maquinário do Engenho Vaca Brava. As demais fontes estão listadas nas referências no fim da página.

Desde o início da colonização brasileira, Portugal procurou aplicar a experiência obtida na produção de açúcar das ilhas da Madeira e dos Açores para implantar nas vastas terras brasileiras o “ouro branco”, como então era conhecido o açúcar, devido ao seu alto valor no mercado europeu.

A instalação oficial da manufatura açucareira no Brasil deu-se após a divisão da colônia em capitanias hereditárias, em 1534.

Pernambuco foi a capitania mais próspera e, em poucos anos, teve um rápido desenvolvimento com a produção de açúcar, algodão e tabaco para exportação.

Esse rápido desenvolvimento deve-se ao empenho e ao caráter empreendedor do seu donatário, Duarte Coelho, mas também a fatores naturais favoráveis ao cultivo da cana: solo fértil, chuvas regulares, clima quente e úmido e localização estratégica, já que era a capitania mais próxima do mercado europeu.

Cabia ao donatário arcar com as despesas da colonização da capitania, ajudar na defesa do território e pagar tributos à Coroa. Por sua vez, dentro da sua capitania, o donatário era a autoridade jurídica e administrativa e tinha o direito de doar terras (sesmarias) a quem tivesse recursos para instalar engenhos de açúcar.

“Foi a iniciativa particular que, concorrendo às sesmarias, dispôs-se a vir (ao Brasil) povoar e defender militarmente, como era exigência real, as muitas léguas de terras em bruto que o trabalho negro fecundaria” (FREYRE, 2006, p. 80)

Os colonos que recebiam sesmarias estavam subordinados à autoridade da Coroa e do donatário; porém, nos domínios das suas terras, gozavam de plenos poderes sobre os seus familiares e escravizados.

No período colonial, “[…] ser proprietário rural e ainda senhor de engenho significava muito mais do que ter uma fonte certa de razoável renda. Significava um título que no Brasil passou a valer como um atestado de nobreza.” (GOMES, 2006, p. 53).

Em outras palavras, o senhor de engenho era dono de terras e detentor de prestígio, riqueza e poder.

As terras onde estes homens abastados edificaram os seus engenhos de açúcar foram-lhes doadas em troca de lealdade à Coroa portuguesa, pagamento de impostos e apoio militar.

Além de atender a interesses econômicos, os engenhos de açúcar desempenhavam, portanto, um papel importante na defesa e no domínio do território brasileiro.

Nos dois primeiros séculos de colonização, grande parte dos engenhos era edificada com torres de defesa, o que mostra a sua importância militar.

Casa de fazenda de um engenho, pintada por Frans Post em 1651
Casa de fazenda, por Frans Post (1651). Para além da função de residência, a casa de engenho do século XVII funcionava também como casa-forte e centro de vigilância do trabalho de escravizados indígenas e africanos.

Veja História, Biografia e as Pinturas de Frans Post no Brasil Holandês

Para o cultivo das suas terras, o senhor de engenho contava com o trabalho de lavradores: homens livres, sem recursos para instalar o próprio engenho, que arrendavam aos senhores de engenho pequenas ou grandes porções de terra para plantar e colher a cana.

Na verdade, a maior parte da cana-de-açúcar moída nos séculos XVI e XVII era fornecida aos engenhos pelos lavradores, que inicialmente tinham participação nos lucros, mas que, com o passar dos séculos, perderam esse privilégio.

Uma propriedade contém geralmente muito mais terras do que o dono possa gerir ou trabalhar […]. Essas sobras de terras dão lugar às habitações de povo livre, das classes pobres que vivem com o magro resultado do seu labor. […]
Nenhum documento é escrito, mas o proprietário da terra autoriza verbalmente o morador a erguer sua casinha num terreno, habitando-o, […] e lhe permitindo cultivar […] (KOSTER, 1942, p. 440)

Além disso, a mão de obra escravizada foi amplamente usada nos engenhos de açúcar, no cultivo das terras não arrendadas, na produção do açúcar e nos afazeres domésticos.

Nas primeiras décadas do período colonial, os senhores de engenho não tinham recursos para importar escravizados africanos; assim, a solução encontrada para a falta de mão de obra foi a escravização de indígenas.

“A percentagem de escravos índios envolvidos na produção de açúcar foi diminuindo na medida em que os senhores de engenho enriqueciam e podiam importar escravos africanos, menos ‘preguiçosos’ que os índios.” (GOMES, 2006, p. 58)

Nota: a expressão “preguiçosos” reflete o preconceito da época colonial em relação aos povos indígenas, que na realidade resistiram ativamente à escravização.

Os escravizados africanos foram, portanto, sendo introduzidos aos poucos na civilização do açúcar, até se tornarem a principal mão de obra disponível.

Gravura do fabrico do açúcar em Hispaniola no século XVI, de Girolamo Benzoni (1595)
Processo do fabrico do açúcar em Hispaniola, século XVI. Girolamo Benzoni, Americae pars quinta (Frankfurt, 1595). Numa das primeiras representações da atividade açucareira no Caribe espanhol, veem-se, além do conjunto das atividades do engenho, instrumentos e práticas industriais ainda medievais.

A sociedade colonial no Brasil, principalmente em Pernambuco e no Recôncavo da Bahia, desenvolveu-se patriarcal e aristocraticamente à sombra das grandes plantações de açúcar […] (FREYRE, 2006, p. 79).

Nos séculos XVI e XVII, o modelo sociocultural do Brasil colônia, voltado para a produção do açúcar, tinha como célula básica os engenhos: unidades produtoras de açúcar, mas também de cultura.

“E foi em torno e no interior dessa unidade colonizadora que se forjou a identidade social luso-americana; uma identidade de caráter original, embasada na aprendizagem mútua entre brancos, escravos, senhores e cativos.” (TEIXEIRA, s/d, p. 2).

Engenho de açúcar fluminense do século XIX, Moulin à sucre, de Rugendas (1835)
Moulin à sucre, de Rugendas, 1835. O engenho de açúcar fluminense do século XIX é aqui representado em plena atividade. Senhor e senhora, cercados por escravizados e animais domésticos, supervisionam o trabalho.

Quem já teve a oportunidade de vivenciar a cultura nordestina e, sobretudo, a pernambucana, observa ainda hoje a forte presença de valores oriundos da cultura colonial, marcada pelo sistema escravocrata, elitista e patriarcal.

O apadrinhamento, o coronelismo, o preconceito racial, a submissão feminina, a hospitalidade, a mistura de temperos na culinária e as festas religiosas são alguns exemplos dessa herança.

Mas, além dos costumes e tradições enraizados na cultura local, a civilização do açúcar deixou em Pernambuco registros materiais de excepcional valor histórico, artístico e paisagístico; entre eles, o engenho de açúcar é o exemplo mais emblemático.

Como era um engenho de açúcar em Pernambuco

Os antigos engenhos de açúcar eram formados por: residência do proprietário, chamada casa-grande; capela para as atividades religiosas; habitação dos escravizados, chamada senzala; fábrica para a produção do açúcar, também chamada moita; e campos de cana.

Na maioria das vezes, também tinham horta, pomar, casa de farinha e criação de animais para garantir a subsistência dos moradores.

O engenho era, portanto, uma unidade agroindustrial que, apesar de ter a produção voltada para o comércio europeu, tinha uma estrutura física que reduzia ao máximo a necessidade de trocas com os núcleos urbanos. Desse modo, os seus moradores viviam voltados para dentro do seu universo sociocultural.

Em suma, o engenho de açúcar, além de ser uma unidade produtora, foi também um elemento estruturador da paisagem e da cultura pernambucana.

A estrutura física do engenho […] é composta por elementos distintos, que podem se alterar de acordo com a região e as condições sociais a qual pertence. Sobre isso Juliano CARVALHO (2005) chama a atenção para o fato de que “Tal conjunto arquitetônico reflete, em sua complexidade, uma série de aspectos da sociedade que o gerou: a estratificação social, as relações de produção, a tecnologia, o papel da religião, constituindo um microcosmo de seu tempo.” (FERREIRA, 2010, p. 65)

Engenho de açúcar com roda d’água num trecho do mapa de Pernambuco de Willem J. Blaeu, 1635
Engenho de açúcar com roda d’água num trecho do mapa de Pernambuco pintado por Willem J. Blaeu, em 1635

Por que os engenhos se concentraram na Zona da Mata

Desde o início da agroindústria açucareira em Pernambuco, os engenhos de açúcar instalaram-se, prioritariamente, na Zona da Mata.

A preferência, ainda atual, por esta região deve-se a três fatores. Em primeiro lugar, a proximidade do porto do Recife. Em segundo lugar, os vários cursos d’água, que permitiam transportar o açúcar por via fluvial e aproveitar a energia hidráulica para a moenda. Por fim, as árvores de médio e grande porte, que eram usadas como lenha nas fornalhas dos engenhos.

Fábrica de um engenho pernambucano com roda d’água, moenda e fornalhas, por Henry Koster (1816)
Fábrica de um engenho pernambucano do século XIX, pintada por Henry Koster em 1816. À direita a roda d’água, no centro a moenda da cana-de-açúcar e à esquerda as fornalhas. Observa-se também a presença da mão de obra negra no fabrico do açúcar.

Do crescimento à ocupação holandesa (séculos XVI e XVII)

Com a contínua construção de novos engenhos de açúcar durante todo o século XVI, a produção de açúcar brasileiro não parou de crescer, estimulada pelo incentivo da Coroa e pela popularização do produto, até abastecer quase todo o mercado europeu.

Em 1580, com a União Ibérica, Portugal passou ao domínio da Coroa espanhola, e o imposto sobre o açúcar brasileiro aumentou; mesmo assim, isso não travou o crescimento da agroindústria açucareira no Brasil.

Até então, Portugal confiava a distribuição do açúcar brasileiro no mercado europeu aos holandeses, que tinham grandes lucros com esse comércio.

Em 1605, ainda sob domínio espanhol, o porto de Lisboa foi fechado aos holandeses, que sofreram grandes prejuízos comerciais.

Em resposta, a Companhia das Índias Ocidentais holandesa ocupou Salvador, na Bahia, em 1624, mas foi expulsa no ano seguinte. Por isso, voltou-se depois para a capitania de Pernambuco.

Em 1630, os holandeses dominaram a cidade de Olinda. No entanto, o interior da capitania só foi conquistado aos poucos, ao longo de sete anos de batalhas, que destruíram engenhos e canaviais.

Em 1637, o conde Maurício de Nassau foi enviado a Pernambuco com a missão de restabelecer a produção açucareira.

Para isso, concedeu benefícios fiscais, perdoou dívidas e importou escravizados.

Além disso, Maurício de Nassau despendeu grandes somas na construção da “Cidade Maurícia” (atuais bairros de Santo Antônio e São José), com obras requintadas como pontes, teatros e palácios.

Também contratou os pintores holandeses Frans Post, Albert Eckhout e Zacharias Wagener para registrar a fauna, a flora e a arquitetura da “exótica” terra conquistada. É graças a esses artistas que hoje temos o registro visual da paisagem pernambucana do século XVII.

Com base nas pinturas de Frans Post, pode-se deduzir que, no século XVII, não havia um esquema rígido na implantação dos edifícios de um engenho. Contudo, alguns padrões repetiam-se: a casa-grande numa meia encosta, com a fachada voltada para a fábrica; a fábrica num plano mais baixo; e a capela num nível igual ou superior ao da casa-grande, o que reforçava a sua importância simbólica.

Curiosamente, essas pinturas não mostram senzalas, o que sugere duas possibilidades: os escravizados habitariam o térreo ou o sótão da casa-grande, ou teriam permissão para construir casebres para morar. (GOMES, 1994)

Engenho de açúcar pernambucano com capela, casa-grande e moita, pintura de Frans Post (ca. 1668)
Pintura de Frans Post feita a óleo sobre madeira, ca. 1668. O quadro retrata a implantação dos edifícios de um engenho de açúcar pernambucano: na parte mais alta do terreno, a capela; perto dela, a casa-grande; no nível mais baixo, a moita.

Apesar dos seus inúmeros feitos, Maurício de Nassau só governou Pernambuco durante sete anos.

Insatisfeita com a demora do retorno financeiro, a Companhia das Índias Ocidentais destituiu-o do comando da Capitania de Pernambuco em 1644.

Mapa da Capitania de Pernambuco de 1698, Provincia di Pernambuco
Mapa da Capitania de Pernambuco de 1698 (“Provincia di Pernambuco”), um dos 23 mapas do relato da guerra luso-holandesa escrito por João José de Santa Teresa e publicado por Giacomo Giovanni Rossi. O mapa mostra rios, vilas, missões e fortes, incluindo Olinda, com o norte orientado à direita.

Pouco depois, em 1645, começou a Insurreição Pernambucana, cujo objetivo era a expulsão definitiva dos holandeses, o que só aconteceu em 1654.

Após tantos anos de guerra, a produção de açúcar em Pernambuco ficou comprometida. Muitos engenhos e canaviais foram destruídos ou abandonados, e grande parte dos senhores de engenho mudou-se, com os seus escravizados e capitais, para capitanias mais tranquilas, como a Bahia e o Rio de Janeiro.

Além dos prejuízos da ocupação holandesa, outros fatores prejudicaram a produção açucareira no século XVII: a falta de lenha para as fornalhas, a concorrência do açúcar das Antilhas, surtos de varíola, inundações e secas prolongadas.

No fim do século XVII, a Coroa portuguesa, já livre do domínio espanhol, passou a incentivar no Brasil novas atividades econômicas mais lucrativas, como o tabaco na Bahia e a mineração em Minas Gerais.

Como consequência, os custos da produção de açúcar em Pernambuco aumentaram, uma vez que os recursos financeiros e a mão de obra escravizada foram atraídos para outras regiões da colônia.

A recuperação e o vapor (séculos XVIII e XIX)

Contudo, “a partir de 1750, uma sucessão de acontecimentos na Europa e no Brasil reverteria a cadeia de crise, anunciando uma nova e resplandecente etapa de prosperidade para a economia brasileira.” (PIRES, 1994, p. 22).

Por um lado, a Inglaterra e a França entraram em guerra e, por isso, o comércio do açúcar antilhano, na época o maior concorrente do açúcar brasileiro, foi prejudicado.

Por outro lado, no Brasil, a extração de minérios decaiu, o que levou antigos mineradores a investir na agricultura.

Já no século XIX, a ocupação de Portugal pelas tropas de Napoleão e a transferência da corte portuguesa para o Brasil, que levou à abertura dos portos em 1808, também favoreceram o comércio do açúcar brasileiro.

Em 1817 chegou a Pernambuco a máquina a vapor, já usada nas Antilhas para acelerar a moenda da cana-de-açúcar. Ela trouxe ganhos de produtividade, mas também aumentou o custo das máquinas; por isso, começou a fusão gradual de vários engenhos e a concentração dos lucros.

Maquinário a vapor do Engenho Vaca Brava, em Areia (Paraíba). Foto: Anna Cristina A. Ferreira, 2009

Durante o século XIX, foram construídas novas casas-grandes no campo e requintados sobrados nas cidades, para dar conforto ao senhor de engenho e à sua família.

Assim, o senhor de engenho voltou a gozar do prestígio, da pompa e do poder que tinha no século XVI.

Os salões das casas-grandes tornaram-se palco de festas, bailes e banquetes. Foi o tempo áureo das grandes e influentes famílias rurais pernambucanas.

De fato, a grande maioria dos edifícios de engenho tradicional que ainda existem hoje foi construída justamente no século XIX, com a revitalização da agroindústria açucareira.

Segundo os textos do engenheiro francês Vauthier, que morou em Pernambuco entre 1840 e 1846, os engenhos pernambucanos desse período tinham os seus edifícios distribuídos de modo a delimitar, de forma descontínua, um pátio interno retangular.

Observa-se, portanto, uma diferença entre a implantação dos engenhos retratados pelos holandeses no século XVII e a dos engenhos descritos por Vauthier, mais racional e ordenada.

Plano geral de um engenho em Pernambuco, segundo Vauthier
Plano geral de um engenho em Pernambuco, segundo Vauthier. Fonte: PIRES, 1994.

Os edifícios do engenho: fábrica, senzala, capela e casa-grande

Quanto à tipologia das edificações, os materiais e as técnicas construtivas variavam conforme o uso.

A fábrica era quase sempre feita de alvenaria de tijolo, com cobertura de madeira e telha cerâmica, e tinha uma forma geralmente retangular, determinada por questões funcionais.

A senzala do século XIX, por sua vez, era geralmente construída com materiais pouco duráveis, como o pau a pique e o adobe. Por isso, deteriorava-se rapidamente, e hoje restam poucos exemplares.

Era sempre térrea e tinha uma planta muito simples: vários cubículos sem janelas, que raramente passavam de 12 m², lado a lado e ligados por uma porta a um único corredor.

A capela, pelo contrário, era o edifício de maior cuidado estético, construída com materiais nobres, como a alvenaria de tijolo ou de pedra.

A sua planta era singela: nave central, altar-mor, sacristia e, no segundo pavimento, o coro.

Além destes quatro elementos básicos, a capela podia ter alpendre, corredores laterais, púlpito, balcões e tribunas. O interior era ricamente ornamentado com pinturas, douramentos, madeira entalhada, imagens sacras e lustres.

“Contudo, essa decoração não deve ser entendida como ostentação dos donos dos engenhos. Convém lembrar que, no campo, a vida social resumia-se aos ofícios religiosos e festas religiosas.” (PIRES, 1994, p. 37).

Já a casa-grande podia ser suntuosa, construída com materiais nobres, ou modesta, com materiais pouco duráveis, dependendo normalmente da distância entre o engenho e a cidade. Quando o engenho ficava perto de um núcleo urbano, a casa-grande servia apenas para abrigar o senhor de engenho na época da moagem.

No resto do ano, ele morava na cidade com a família. Porém, quando o engenho ficava longe da cidade, a casa-grande ganhava ares de palacete e era a principal, ou única, residência do senhor de engenho e da sua família.

Segundo o arquiteto Geraldo Gomes, as casas-grandes construídas no século XIX podem ser classificadas em três tipos: bangalô, sobrado neoclássico e chalé.

O bangalô é um edifício de porte médio, com um pavimento, que pode ter porão semienterrado e telhado de quatro águas; a sua principal característica é o alpendre em forma de “U”, que acompanha três fachadas.

O sobrado neoclássico, por outro lado, é uma construção de grande porte, com dois pavimentos, planta retangular e telhado de quatro águas.

Por fim, o chalé, de porte médio, parece-se com o bangalô, mas o telhado é de duas águas, com a cumeeira perpendicular à fachada principal, e pode ter ornamentos ao gosto eclético, já que só surgiu no meio rural no fim do século XIX.

Engenhos centrais e usinas: o fim dos engenhos banguês

Nesse período, a agroindústria açucareira entrou em novo declínio por vários motivos: a concorrência do açúcar de beterraba produzido na Europa, o início do ciclo do café, a abolição da escravatura em 1888, o início da industrialização do país e a queda do preço do açúcar de cana no mercado internacional.

Para modernizar a produção do açúcar pernambucano, o governo imperial instalou na província, em 1884, quatro engenhos centrais.

Estes eram maiores do que as fábricas dos engenhos tradicionais e tinham maquinaria moderna, movida a vapor, capaz de produzir açúcar cristal.

Assim, os engenhos centrais produziam mais açúcar a um custo mais baixo; no entanto, não cultivavam a cana que moíam.

Essa cana continuava a ser fornecida pelos engenhos banguês (tradicionais).

Sob o ponto de vista da organização do espaço e da paisagem, o Engenho Central é o primeiro – e fatal – passo na desestruturação do universo açucareiro.

Com a transferência da atividade industrial (e de parte significativa do lucro) para a indústria, não somente as fábricas dos engenhos perderam sua razão de ser, mas cada unidade produtiva se enfraquece.

Se, antes, a existência de um micro povoado para cada engenho era indispensável, dada a grande quantidade de tarefas a serem realizadas, agora as fábricas, e com elas as olarias, poderiam ser desmontadas; não haveria mais necessidade de mão-de-obra especializada; o proprietário precisa ficar menos tempo no campo, e com ele, sua família, de forma que o edifício da casa-grande permanece mais simbólico que útil; e a diminuição da população diminui o sentido até da capela. (CARVALHO, 2009, p. 37).

Poucos anos depois da instalação dos engenhos centrais surgiram, por iniciativa privada, as usinas. Além de concentrarem a produção do açúcar com técnicas industriais, elas também se encarregavam do plantio e da colheita da cana; desse modo, incorporaram terras de antigos engenhos ou transformaram os engenhos em simples fornecedores de matéria-prima. Aos poucos, as usinas substituíram os engenhos centrais, em parte por causa da irregularidade no fornecimento de cana para a moagem.

Os senhores de engenho preferiam produzir aguardente, rapadura ou mesmo açúcar pelos velhos métodos do que fornecer cana para os engenhos centrais.

A Primeira República no Nordeste (1889-1930) pode ser caracterizada globalmente como um período de transição caracterizado pela substituição progressiva dos engenhos pelas usinas.

Em outros termos, esse período assiste no Nordeste à decadência progressiva da antiga aristocracia da cana-de-açúcar e o nascimento de novos setores ou grupos sociais, baseados no desenvolvimento do capital industrial e financeiro. (PERRUCI, 1978, p. 105).

Pintura a óleo da Usina Catende, construída no final do século XIX
Pintura a óleo da Usina Catende, construída no final do século XIX. “Já foi a maior usina de açúcar na América Latina, chegando a ocupar uma área de 70.000 ha entre Pernambuco e Alagoas.”

Contudo, a instalação dos engenhos centrais e, depois, das usinas pode ser entendida como um processo de transformação do universo açucareiro, e não da sua destruição.

Afinal, a cultura está em constante transformação, e tudo o que está ligado a ela também; negar essas mudanças na paisagem cultural seria, portanto, negar a sua própria essência.

Entretanto, estas mudanças levaram ao abandono dos edifícios dos antigos engenhos e de práticas culturais (como festas religiosas, cantigas e danças de roda), à alteração da divisão das terras nas áreas rurais e à mudança das relações de trabalho no campo, que passaram de um arrendamento informal com moradia para um contrato temporário de trabalho assalariado.

Esta mudança nas relações de trabalho, que começou na década de 1940, levou à produção rural princípios capitalistas e industriais: o trabalhador perde a posse dos meios de produção e fica apenas com a sua força de trabalho.

Os pequenos agricultores e os trabalhadores rurais são então expulsos do campo, para onde só voltam na época da colheita da cana, e passam a ser chamados de boias-frias.

Estas mudanças tiveram reflexos tanto no meio rural como no urbano: êxodo rural; aumento das áreas de cana, antes ocupadas por moradias e roçados; insegurança para o trabalhador rural, sem vínculo de emprego estável; e o surgimento do Movimento dos Sem Terra.

Durante todo o século XX, a expulsão dos pequenos agricultores do campo e a concentração da produção do açúcar em fábricas cada vez maiores continuaram, ao mesmo ritmo do crescimento da produção do açúcar nordestino.

Proálcool e o setor sucroalcooleiro

Em 1975, esse processo acelerou-se com o Proálcool (Programa Nacional do Álcool), criado após a forte subida do preço do petróleo em 1973 para estimular a produção e o consumo de álcool em substituição à gasolina.

Com esse fim, o governo incentivou a ampliação das áreas de cana, a modernização e ampliação das destilarias e a instalação de novas unidades, além de dar subsídios aos usineiros para produzirem álcool em vez de açúcar.

De fato, “as etapas na produção do açúcar e do álcool diferem apenas a partir da obtenção do suco, que poderá ser fermentado para a produção de álcool ou tratado para o açúcar.”

Por isso, cabe ao usineiro avaliar, a cada safra, qual dos dois produtos oferece maior vantagem econômica, com base nos preços no comércio internacional e nos incentivos do governo.

Na época da implantação do Proálcool, o preço do açúcar estava em baixa, o que facilitou a adaptação das usinas para o fabrico de álcool.

Rapidamente, a frota brasileira de carros a gasolina foi sendo substituída por carros a álcool, e a produção de álcool no país chegou a 12,3 bilhões de litros entre 1986 e 1987.

Porém, a partir de 1986, o preço do petróleo baixou e manteve-se estável, tornando o álcool pouco vantajoso tanto para o consumidor como para o produtor.

Ao mesmo tempo, o preço do açúcar subiu no mercado internacional, e os usineiros passaram a dar prioridade ao açúcar.

Outro fator que enfraqueceu o Proálcool foi a crise de abastecimento da entressafra de 1989–90, que desacreditou o programa junto das montadoras e dos consumidores.

Apesar de passageira, a crise, juntamente com a redução dos incentivos do governo, provocou nos anos seguintes uma forte queda da procura e das vendas de carros a álcool, até as montadoras deixarem de vender modelos novos movidos a esse combustível.

Entretanto, a produção de álcool ganhou novo fôlego com os motores flex, que funcionam com álcool, gasolina ou qualquer mistura dos dois. Essa tecnologia chegou ao mercado brasileiro em 2003 e teve rápida aceitação; hoje, quase todos os automóveis vendidos no Brasil são flex.

Desde então, é sobretudo a iniciativa privada que investe em novas usinas e no aumento da área de cana, apoiada na procura crescente por etanol e açúcar.

O que resta hoje dos engenhos de Pernambuco

Mais de um século depois da implantação das usinas em Pernambuco, o perfil da agroindústria açucareira mudou bastante.

A modernização da produção permitiu manter esta atividade econômica no estado; no entanto, contribuiu muito para a degradação do patrimônio material ligado à civilização do açúcar.

Hoje são raros os engenhos banguês que se mantêm de pé. A maioria foi demolida pelas usinas para aumentar a área de cana ou simplesmente abandonada, até chegar à ruína.

A mudança da estrutura socioeconômica transformou os engenhos em fazendas: de produtores de açúcar eles passaram a fornecedores de cana para as usinas.

Com o consequente desaparecimento da figura do “senhor de engenho” e o aparecimento do administrador, modificações foram-se introduzindo nas edificações dos engenhos.

A mudança do uso inevitavelmente acarretou em outras mudanças. O engenho não é mais um centro agroindustrial e a perda da importância que essa condição lhe conferia contribuiu decisivamente para o seu abandono pelos antigos proprietários.

A casa-grande encontra-se desabitada ou, em alguns casos, ocupada por moradores que concorrem para a sua descaracterização.

Pelas mesmas razões, a capela, quando existe, não funciona mais como templo religioso e a “moita” […] virou estrebaria ou depósito.

Raras as casas-grandes que ainda permanecem bem conservadas. Raríssimas as moitas que ainda conservam sua maquinaria típica. Paralelamente à mudança de uso, também o desinteresse, em parte fruto da desinformação acerca do valor desses sítios históricos, bem como as dificuldades financeiras dos atuais proprietários são responsáveis pelo aspecto decadente da maioria dos engenhos.

Sem falar no grande número dos que foram absorvidos pelas usinas, transformados em destilarias de aguardente ou divididos em pequenas propriedades e/ou simplesmente não existem mais. (PERNAMBUCO, 1982, p. 10).

Perguntas frequentes sobre os engenhos de Pernambuco

Quando começaram os engenhos de açúcar em Pernambuco?

Logo após a criação da capitania de Pernambuco, entregue a Duarte Coelho em 1534. A partir daí, Pernambuco tornou-se rapidamente a capitania mais próspera do Brasil.

Por que Pernambuco foi o maior produtor de açúcar do Brasil colonial?

Por causa do solo fértil, das chuvas regulares, do clima quente e úmido, dos rios da Zona da Mata e da proximidade com a Europa, além do empenho do donatário Duarte Coelho.

Quais eram as partes de um engenho de açúcar?

Casa-grande, capela, senzala, fábrica (moita) e canaviais. Além disso, muitos tinham horta, pomar, casa de farinha e criação de animais.

O que é um engenho banguê?

É o engenho de açúcar tradicional, que cultivava a própria cana e produzia o açúcar com métodos antigos, antes dos engenhos centrais e das usinas.

O que aconteceu com os engenhos de Pernambuco?

A partir do fim do século XIX, os engenhos centrais e, depois, as usinas concentraram a produção. Por isso, a maioria dos engenhos virou fornecedora de cana, foi abandonada ou foi demolida.

Qual foi o papel dos holandeses nos engenhos de Pernambuco?

Os holandeses ocuparam Pernambuco entre 1630 e 1654. A guerra destruiu muitos engenhos; no entanto, Maurício de Nassau (1637–1644) tentou recuperar a produção com benefícios fiscais e perdão de dívidas.

Referências citadas

  • CARVALHO, Juliano (2005; 2009).
  • FERREIRA, Anna Cristina A. (2010) — fonte principal deste artigo.
  • FREYRE, Gilberto. Casa-Grande & Senzala (2006).
  • GOMES (1994; 2006).
  • KOSTER, Henry (1942).
  • PERNAMBUCO (1982).
  • PERRUCI (1978).
  • PIRES (1994).
  • TEIXEIRA (s/d).

Veja também: Engenho de açúcar no Brasil colonial · Sociedade açucareira no Brasil colonial · História da cana-de-açúcar

Willy Sievert

Escrito por Willy Sievert

Editor do Bahia.ws desde sua fundação em 2009. Morador de Salvador, viaja com frequência pelo Nordeste e por todo o Brasil para manter os guias atualizados. Conheça mais sobre Willy Sievert →

Publicado em 22/01/2023 · Atualizado em 16/10/2026

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