Carlos Julião, engenheiro militar e desenhista de origem italiana ao serviço da coroa portuguesa, não chegou a morar ou se estabelecer no Brasil. Ele viveu em Portugal, onde atuou na administração colonial, mas produziu uma vasta obra sobre as colônias portuguesas, incluindo o Brasil. Seus desenhos e aquarelas documentam a vida social, cultural e étnica das colônias e foram criados com base em relatos, documentos e possivelmente em visitas pontuais. Portanto, não há registros de uma chegada ou partida de Julião especificamente para o Brasil, mas seu trabalho permanece como uma das mais importantes representações iconográficas do período colonial português.
Resumo Rápido: Quem foi Carlos Julião
Carlos Julião (Turim, 1740 — Lisboa, 18 de novembro de 1811) foi um engenheiro militar e desenhista de origem italiana que serviu à coroa portuguesa por quase cinco décadas. Ingressou no exército português em 1763, passou cerca de seis anos na Índia a serviço da administração colonial e, na viagem de retorno a Portugal, fez uma passagem pelo Brasil — sem nunca ter residido no país. É a partir dessa experiência, somada a relatos e documentos de terceiros, que Julião produziu sua obra mais conhecida, o álbum de aquarelas “Riscos Illuminados de Figurinhos de Brancos e Negros dos Uzos do Rio de Janeiro e Serro do Frio”, hoje uma das fontes iconográficas mais estudadas sobre o cotidiano, o trabalho escravizado e os tipos sociais do Brasil colonial. Encerrou a carreira como brigadeiro do exército, reformado em 1811 pelo príncipe regente d. João, então no Rio de Janeiro — mas faleceu em Lisboa, onde comandava a artilharia de defesa da cidade sob o marechal Beresford. Suas obras estão hoje preservadas em instituições como o Gabinete de Estudos Arqueológicos de Engenharia Militar (GEAEM) e a Biblioteca Nacional de Portugal, em Lisboa, e o Instituto Ricardo Brennand e a Biblioteca Nacional, no Brasil.
Neste artigo
- Obras de Carlos Julião sobre o Brasil
- 1. A Figuração do Espaço Colonial
- 2. Figurinhas de Brancos e Negros: um álbum de tipos brasileiros
- 3. As Figurinhas na Pintura
- Biografia e Carreira Militar de Carlos Julião
- 1. Origem e Formação
- 2. Início de Carreira no Exército
- 3. Embarque para os Estados da Índia
- 4. O retorno a Portugal e a busca de reconhecimento
- 5. Arsenal Real do Exército
- Perguntas Frequentes sobre Carlos Julião
Obras de Carlos Julião sobre o Brasil
- A Figuração do Espaço Colonial
- Figurinhas de Brancos e Negros: um álbum de tipos brasileiros
- As Figurinhas na Pintura
1. A Figuração do Espaço Colonial
A Elevação e fachada é uma obra composta de três partes ou segmentos, que se distribuem nos quatro segmentos horizontais em que o papel suporte se encontra dividido em:
1. Primeiro Segmento
O primeiro deles, o superior, é ocupado por uma vista em prospecto de Salvador, de feitio bastante convencional, em que a cidade é representada em perfil tomado do mar. O desenho põe em evidência o modo como o núcleo urbano se assenta sobre o relevo natural do sítio. Neste prospecto, são apontados com números os principais edifícios e logradouros da antiga capital do Brasil, cada um deles correspondendo a um item da legenda explicativa que ocupa toda a faixa inferior da prancha, ladeando o extenso título. Tanto Ferrez (1963:38) quanto Reis (2000:316) consideram que este prospecto de Salvador seja uma cópia do perfil da cidade levantado por José Antonio Caldas (1725-1782)3 em 1756, sob orientação do engenheiro militar Manuel Cardoso de Saldanha.
2. Segundo Segmento
No segundo segmento, por sua vez, encontra-se representado o sistema de defesa da cidade, com seus oito fortes e duas baterias desenhados concomitantemente em planta e elevação, sendo as duas baterias representadas superpostas ocupando o nicho central do segmento. Os desenhos são acompanhados de legenda explicativa, que detalha o posicionamento geográfico de cada forte, assim como o respectivo calibre de sua artilharia, conforme as legendas abaixo:
- Forte de São Bartholomeu da Passagem, situado no Rio Pirajá, distante da Bahia uma légua. A sua artilharia é composta por oito peças de ferro, para saber: uma de calibre doze, uma de calibre oito e seis de calibre seis.
- Forte de Santo Antônio da Barra da Cidade da Bahia. Este forte defende a Porta da Barra, que dá acesso à Baía. A sua artilharia é composta por 16 peças, sendo 8 de bronze, a saber: duas de calibre 26, quatro de calibre 16 e duas de calibre 19. As outras 8 peças são de ferro, de calibre 36.
- Fortinho de Santa Maria. Este fortinho, situado ao norte do Forte de Santo Antônio da Barra, a um tiro de peça, defende um ponto estratégico na Barra, apto para desembarque. A sua artilharia é composta por peças de ferro de calibre 24 e 18.
- Fortinho de São Diogo. Situado ao norte do Fortinho de Santa Maria, a um tiro de mosquete. Entre esses dois fortinhos está o Porto Irajá da Barra. A sua artilharia é composta por cinco peças de ferro, a saber: três de calibre 10 e duas de calibre 8.
- Bateria de Paulo e à Bateria da Ribeira. Estas baterias cruzam seus tiros com a Fortaleza do Mar e são a melhor defesa da Bahia. VI. A sua artilharia é composta por 19 peças de ferro de calibre 24. V. A sua artilharia é composta por 2 peças de bronze, uma de calibre 14 e outra de calibre 12. Além disso, possui mais 30 peças de ferro, sendo 18 de calibre 26, 10 de calibre 18 e 2 de calibre 8.
- Fortaleza do Mar. Esta Fortaleza está edeficada dentro do Mar afastada da Terra dois tiros de Mosquete a sua Art.a de Bronze, de Calibre 24, 18, 16, e 8 e a de Ferro, e de Calibre 40, 36, 26 e 18.
- Fortinho de Francisco. Situado no centro da povoação da Marinha da Cidade da Bahia, é defeituoso e sem defesa pelos edifícios que lhe avançam lateralmente. A sua artilharia é composta por 7 peças de ferro, a saber: duas de calibre 12, duas de calibre 10 e três de calibre 6.
- Fortinho do Alberto. Situado junto à casa de Noviciado que foi dos Jesuítas, este forte é defeituoso, tendo aliada a Marinha. Neste lugar, há necessidade de [reforço?]. A sua artilharia é composta por 7 peças de ferro, a saber: duas de calibre 72, três de calibre 10 e duas de calibre 8.
- Fortinho de Monserate. Situado na ponta do norte, [em cima?] da Península, norte, sul com o Forte de Santa Maria, que fica na ponta do sul, na […] que forma esta linha está colocada a cidade da Bahia e seus subúrbios. A sua artilharia é de ferro, de calibre 18 e de 12.
Consideradas, portanto, em conjunto, as duas partes que compõem a metade superior da prancha de Julião constituem uma tipologia de representação bastante condizente com o universo dos registros visuais de caráter militar, abundantes na produção iconográfica setecentista relativa ao Brasil. O desenho serve aqui a demonstrar o domínio sobre o território: o perfil da cidade evidencia a ocupação do sítio, aponta a presença de tais e quais instituições civis e religiosas, índice do grau de desenvolvimento do núcleo urbano; o registro dos fortes, por outro lado, dá a ver os recursos disponíveis para a manutenção deste domínio. Estamos diante do que Belluzzo chama de um desenho finalista, instrumental, que “não deixa fluir o imaginário (…) e serve à construção da vida real” (Belluzzo 1994:3,49).
3. Terceiro Segmento
O terceiro dos segmentos horizontais que compõem a prancha da Elevação e fachada, porém, marca um diferencial da obra de Julião no âmbito da produção iconográfica de cunho militar. Os cinco compartimentos em que é dividida esta seção da obra encerram representações de figuras humanas, protótipos dos tipos urbanos que serão largamente difundidos pela produção costumbrista dos artistas viajantes do século XIX.
As figuras representadas na prancha de Julião correspondem, grosso modo, a duas senhoras brancas, duas figuras de escravos (sendo um negro com jarro de barro na cabeça e uma negra carregando um tabuleiro de frutas), além de um grupo central, em que dois escravos carregam uma senhora branca numa cadeirinha4, acompanhados por um cavalheiro que lhes indica a direção a seguir5. As figuras são identificadas com as seguintes legendas:
- Modo de trajar das mulatas da cidade da Bahia
- Preto que vende leite na Bahia
- Carruagem, ou cadeirinha em que andão as senhoras na cidade do Salvador da Bahia de Todos os Santos
- Mossa dançando o landú de bunda a cinta
- Traje das pretas minas da Bahia quitandeiras
Sua configuração geral é bastante semelhante ao anterior, sendo também dividido em quatro segmentos horizontais, embora, neste caso, os prospectos de cidades ocupem uma área bem menor, apenas as duas faixas superiores. Ali, estão desenhadas vistas tomadas do mar de quatro cidades de possessão portuguesa na Ásia, América e África, conforme indicam as seguintes legendas:
- Configuração da Entrada da Barra de Goa. Número 1: Fortaleza de Agodá, Número 2: Forte dos Reis e Número 3: Nossa Senhora da Piedade.
- BC Prospeto que mostra a Praça de Dio vista da parte do mar em distancia de meya No.4 a Fortaleza de Dio, No.5 Entrada da Barra.
- CD Configuração que mostra a Entrada do Rio de Ianeiro em distancia de meya legoa ao mar. No.6 Na. S.a de Copacabana, No.7 o Pão de Assucar, No. 8 Fortaleza de S.a Crus.
- DE Prospeto que mostra a Ilha de Mozambique estando no seu Porto. Tem esta Ilha 850 braças de comprido, e 120 na mayor largura. No.9 a Fortaleza da d.a, he goarnecida com 40 peças de Bronze, e 20 de Ferro.
Julião se vale novamente do recurso do registro em perfil das cidades, assinalando no desenho os fortes que guarnecem seus sistemas de defesa. A única exceção é o perfil do Rio de Janeiro, em que não vemos propriamente a cidade, mas a entrada da baía de Guanabara, onde, além dos fortes de Copacabana e Santa Cruz, ganha destaque a pedra do Pão de Açúcar, a funcionar como marco sinalizador no relevo. É fundamental notar a maneira como Julião dispõe as vistas unidas como se fossem a representação de um mesmo território, ainda que saibamos tratar-se de cidades geograficamente muito distantes. A vista em perfil, ademais, liga-se à prática da navegação, enfatiza a condição do território observado de longe, do risco tomado em alto mar. Associa-se à visão daquele que se ocupa do que Murilo Marx chama de “binômio do defender-se e do aportar” (Marx 1996), que orienta a lógica de ocupação portuguesa na América. A essas duas faixas superiores, seguem-se outras duas em que nos são apresentadas dezenove figuras humanas, algumas isoladas, outras em grupos. Esses tipos estão identificados pelas seguintes legendas:
- Ermitão pedindo esmola
- Preta com taboleiro de doce e gorgoleta de agoa
- As pretas do Rozario
- Rede em que se transportao os Americanos para as suas chácaras, ou fazendas
- Preta que leva o jantar na cuya
- Moça dançando o landu de bunda a cinta
- Mulata recebendo carta por sua a
- Trajem das mulheres salvagems
- Traje das nhonhas de Macao
- Gentio de Goa no traje ordinário
- Gentio de Goa trajado de gala
- Bayé de Goa com traje Bramine
- Baye de Goa de Casta Chardos
- Farás de Mancilla mostrando o sol da Índia
- Tapuyas já domesticados
- Mistissa soministrando canja
- Traje dos Chinas de Macao
- Baye com dois caloens de agoa
- Canarim e vai tirar a surra do coqueiro
O que de imediato diferencia esta prancha daquela analisada anteriormente é que não há a divisão em compartimentos onde as figuras estão contidas. Aqui elas são apresentadas em fila, como num desfile, o que nos permite fazer um paralelo com os perfis das cidades, desenhados num contínuo. Em conjunto, essas imagens evocam a extensão do domínio português sobre uma diversidade de territórios e povos pelo mundo, na medida em que reúnem dois pontos de colonização lusa na Ásia (Goa e Diu), um na África (Moçambique) e um na América (Rio de Janeiro), combinando-os a tipos humanos procedentes dessas e de outras regiões não representadas. Naturalmente, está implícita uma certa operação de nivelamento – se é que o termo é conveniente nesse contexto – já que, em sua variedade, expressa nas vestimentas e adornos, os personagens se equivalem, pois vivem sob as mesmas regras de um governo português. Todos esses territórios e todos esses povos estão unidos. E tudo isso é Portugal. Nesse rol de tipos humanos, Ferrez (2000) identifica como sendo provenientes do Rio de Janeiro as figuras de números um a oito, que compreendem toda a faixa superior do “desfile”, mais a índia selvagem que inicia o segmento inferior. Já Tenreiro (2007) considera significativo que todos os tipos da faixa superior sejam brasileiros, porém não necessariamente de uma mesma região, e que os outros brasileiros representados na parte inferior sejam apenas os indígenas: uma selvagem e um casal Tapuia “domesticado”9.
Da mesma forma, o tema da mulher sendo carregada na rede já fazia parte do repertório de imagens sobre o Brasil desde, pelo menos, a presença holandesa no nordeste do país no Seiscentos. É o que podemos verificar, por exemplo, no desenho nr. 104 do Thierbuch10 de Zacharias Wagener (1614-1668) (Figura 4). Ainda no contexto do Brasil Holandês, o mesmo tema surge reelaborado em linguagem decorativa da Manufatura Gobelins na tapeçaria.
É bastante evidente que tanto a Elevação e fachada quanto a Configuração da entrada da barra de Goa se organizam, do ponto de vista compositivo, a partir de uma mesma operação: a superposição de recortes de figuras humanas a vistas topográficas. O principal efeito desta operação está em promover uma direta identificação entre as figuras e aquele “lugar”. No que diz respeito aos próprios personagens, reforça-se nesses desenhos a ideia de um “tipo”, figura que é composta a partir da reunião de certos atributos que tornam visualmente reconhecível um determinado grupo social. Pensando estritamente em termos desses meios de representação, não há nos trabalhos de Julião grande inovação. Tanto a constituição do tipo, quanto a associação entre o tipo e o lugar fazem referência a tradições visuais bastante difundidas na arte europeia, notadamente na cartografia e na literatura de viagem, desde, pelo menos, o século XVI.Por ora, gostaríamos de sugerir uma aproximação entre as obras de Julião e o conhecido Mapa do Brasil sob domínio holandês (Figura 6), de autoria do geógrafo, astrônomo e botânico Georg Marcgraf (1610-1644).
Assim como o Thierbuch, o mapa de Marcgraf integra a excepcional série iconográfica relacionada com o breve governo de Maurício de Nassau (1604-1679), baseado em Pernambuco entre 1637 e 1644. Como lembra Beatriz Bueno11, a representação cartográfica de Georg Marcgraf resulta de observações e levantamentos feitos pelo próprio geógrafo durante sua estadia no Brasil, e reúne informações detalhadas sobre a rede fluvial e viária que propiciava a interiorização, a vegetação e o relevo da região, a rede urbana e as propriedades rurais, as fortalezas para defesa da costa, bem como as tribos indígenas que eram aliadas ou inimigas dos holandeses.
2. Figurinhas de Brancos e Negros: um álbum de tipos brasileiros
É preciso também considerar que o fato de recortar e recombinar essas figurinhas em diferentes suportes sugere a existência de um repertório de tipos constituído a priori pelo desenhador. Nesse sentido, merece atenção o conjunto de desenhos aquarelados que compõem os Riscos Iluminados ditos de figurinhos de Brancos e Negros dos usos do Rio de Janeiro e Serro do Frio, pertencente ao acervo da Fundação Biblioteca Nacional (FBN), Rio de Janeiro. Composto por 43 pranchas de ilustrações não acompanhadas de texto, este manuscrito não traz indicação de autoria, mas é tradicionalmente atribuído a Julião pela semelhança e mesmo direta correspondência entre muitas de suas figuras e as que compõem as pranchas citadas acima. Originalmente, o conjunto dos desenhos atribuídos a Julião fazia parte de um volume que reunia três obras, a saber: Noticia summaria do Gentilismo da Ásia com dez riscos iluminados ditos de figurinhos de Brancos e Negros dos uzos do Rio de Janeiro, e Serro do Frio Ditos de Vazos e Tecidos Peruvianos14.
Seja qual for a data do manuscrito original, é fato que as cópias da Notícia sumária… que se encontram em coleções portuguesas são todas provenientes de Goa e datam da segunda metade do século XVIII. Cientes da presença de Carlos Julião naquela região entre 1774 e 1779 – como teremos oportunidade de averiguar no capítulo 2 deste trabalho – seria natural supor que o exemplar da FBN tenha sido copiado por ele em seu período de serviços na Índia. Contudo, como já foi notado, nada do ponto de vista do estilo aproxima as ilustrações deste códice dos desenhos atribuídos a Julião nos Ditos de figurinhos de brancos e negros…, restando, portanto, admitir que a hipótese de considerá-lo autor da cópia da Notícia sumária… deve-se somente à presença de ambos os manuscritos na mesma encadernação. Ora, a reunião de diferentes documentos num mesmo volume não é indicativo seguro de autoria, uma vez que a operação obedece, na maioria das vezes, a critérios estabelecidos pela conveniência do proprietário. A questão da autoria tem de ser tomada com atenção, nesse caso, não sendo de todo óbvio admitir que a cópia do códice indiano no acervo da FBN tenha sido executada por Julião. A parte referente aos Ditos de vasos e tecidos peruvianos é composta por 33 pranchas de ilustrações em aguada de sépia, não acompanhadas de texto. Nessas imagens, é curioso notar a atenção dedicada pelo desenhista às padronagens que ornam vasos e têxteis, assim como a certos instrumentos como teares, para confecção de tecidos e rendas. Abaixo do título que abre o álbum, há uma anotação a grafite que afirma: “os dezenhos destes vazos forão tirados dos originaes encontrados no galeão Hespanhol q deo à costa em Peniche e q vinha carregado de Prata no Reinado de D. Maria 1a”. O mais célebre naufrágio ocorrido na costa de Peniche no período mariano foi o do navio de guerra espanhol San Pedro de Alcantara, em fevereiro de 178616.
Figuras 10 a 12 – Carlos Julião (atribuído a). Estampas 1 a 3 de Ditos de figurinhos de brancos e negros…, sem data (século XVIII). Aquarela sobre papel. Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro.
Figuras 13 a 16 – Carlos Julião (atribuído a). Estampas 4 a 7 de Ditos de figurinhos de brancos e negros…, sem data (século XVIII). Aquarela sobre papel. Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro.
Sem dúvida, a conjuntura internacional beneficiou Bandeira nesta ocasião, já que no tumultuado ano de 1789 começavam a agravar-se as divergências que acabariam por colocar Portugal e Espanha, aliados respectivamente de Inglaterra e França, em lados opostos do conflito europeu, o que certamente teria reverberação nos territórios americanos. Para a coroa portuguesa, portanto, era fundamental poder contar com a experiência de guerra contra os espanhóis que Pinto Bandeira já possuía. O fato é que, já em agosto de 1790, ele despachava documentos como Comandante General da Capitania de São Pedro (Silva 1999:137). Há apenas uma imagem de Pinto Bandeira reproduzida na dissertação de Augusto da Silva (1999) a ele dedicada. A ilustração não traz indicação de autoria, data ou fonte, mas é ela que nos permite afirmar que se trata do mesmo personagem que brande a espada a cavalo na página de rosto do manuscrito da FBN [Figura 9]. Sendo assim, se confirma a hipótese sustentada por Cunha de que esta cena alegórica celebra as vitórias de Pinto Bandeira contra os espanhóis no sul. A temática militar prossegue nas estampas de dois a sete dos Ditos de figurinhos de brancos e negros…, em que estão representados diversos tipos de uniformes de oficiais [Figuras 11 a 16] e uma cena de conteúdo mais anedótico, em que uma moça se despede chorando de um oficial. Eles foram identificados por José Washt Rodrigues (1891-1957) em 1949, segundo atesta um documento datilografado e assinado por este artista e historiador, que foi anexado à página de abertura do álbum, e se intitula: “Esclarecimento sobre alguns figurinos militares existentes no livro de estampas originais, em cores, do último quartel do século XVIII adquirido nos EUA do Norte pelo governo brasileiro, e atualmente na Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro”. A denominação apontada por Rodrigues serviu de base para os títulos com que Ferrez (2000: v.1, 115) identifica as estampas em seu Iconografia do Rio de Janeiro, assim como às legendas citadas por Cunha na edição facsimilar do álbum (1960). Até mesmo a designação da estampa sete como sendo uma “cena romântica” se repete nos dois autores. O tema dos uniformes militares é sem dúvida um dos mais recorrentes no que diz respeito à representação da figura humana no Portugal setecentista, o que pode ser atestado pela sua presença em praticamente todos os arquivos consultados, notadamente o ANTT [Figura 17], o AHU [Figura 18] e a FBN [Figuras 19 e 20]. Esses desenhos circulavam em vários formatos, geralmente como anexo de documentos enviados das colônias para o Reino. Assim, nos deparamos durante a pesquisa com figurinos militares de São Tomé e Príncipe, Moçambique e Macau, além de Brasil. Com frequência os desenhos acompanhavam os “Mapas de tropas”, tabelas em que eram enumerados e quantificados todos os oficiais e soldados que compunham cada regimento das tropas pagas e auxiliares de determinada região. Certamente, devem ser entendidos como parte do processo de reorganização do exército português encabeçado pelo conde de Lippe (1724-1777) na década de 1760, de que trataremos no próximo capítulo. Foi Lippe quem dotou o exército luso pela primeira vez de um plano de uniformes em 1764, que abrangia todas as tropas do Reino e Conquistas, e não surpreende que os desenhos de figurinos militares comecem a se multiplicar a partir desta data. É importante notar que a confecção dos vários elementos que compunham o uniforme de oficiais e soldados servindo em Portugal e no ultramar – como botões, calçados, galões, chapéus, armas, etc. –, assim como a aquisição dos tecidos e a própria fabricação dos fardamentos, eram centralizadas no Arsenal Real do Exército em Lisboa. Parece lógico concluir que os desenhos de figurinos militares, acompanhados dos Mapas de tropas, servissem também para que no Arsenal se pudesse quantificar o material indispensável para vestir as forças militares de cada região. Nunca é demais lembrar que o exército português compreendia tropas servindo na Europa, Ásia, África e América e a visualização dos uniformes possibilitada pelo desenho certamente facilitava a logística de fardar todos os contingentes segundo as recentes instruções do conde de Lippe. Com relação à figuração, em nenhum gênero – se é que se pode considerar os figurinos como um “gênero” – é mais patente a questão do desenho constituído a partir de modelos. As diversas séries são muito semelhantes, divergindo apenas no que diz respeito ao traço, ou propriamente ao estilo pessoal do autor, segundo tenha maior ou menor destreza na representação da figura humana, mais ou menos habilidade no uso da aquarela. Na verdade, trata-se frequentemente da mesma figura vestida de modo diferente: quase não há variações no posicionamento das mãos – que podem estar apoiadas num bastão, segurando uma arma ou sobre o peito –, ou na organização corporal.
Aquarela e nanquim sobre papel – Ilustração de Mapa do fardamento feito no Porto sob a inspeção do Tenente General José de Almada. Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Lisboa (Ministério do Reino, Colecção de mapas e outros documentos iconográficos, doc.72)
Figuras 19 e 20 – José Corrêa Rangel. Ilustração de Guarnição do Rio de Janeiro com seus uniformes e mapas do número dos regimentos pagos e dos auxiliares. Feito por José Corrêa Rangel. Ajudante de infantaria com exercício de engenheiro, 1786 – Aquarela e nanquim sobre papel – Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro.
Figura 21 – Autor desconhecido. Uniformes gerais das tropas da Espanha, 1778. Água-forte e aquarela sobre papel. Gabinete de Estudos Arqueológicos de Engenharia Militar, Lisboa (Cota 4309_I-4-55-64-1)
E os figurinos militares de Julião fazem parte desse universo dos exércitos de “soldadinhos de chumbo”. As matrizes desses desenhos devem ser buscadas na gravura, de modo especial nas estampas que representam Mapas de tropas, como é possível comprovar pela Figura 21. Aos uniformes militares segue-se um grupo de quatro ilustrações em que os personagens são casais indígenas [Figuras 22 a 25]. Figuras 22 a 25 – Carlos Julião (atribuído a). Estampas 8 a 11 de Ditos de figurinhos de brancos e negros…, sem data (século XVIII). Aquarela sobre papel. Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro
Na estampa oito surge pela primeira vez um cenário onde as figuras se movimentam, nesse caso, composto de rio, montanhas e árvores. O casal aparenta ser ainda selvagem, já que ambos carregam arco e flecha e acabam de abater uma onça que sangra em primeiro plano. Novamente, chamamos a atenção para representação arquetípica do indígena brasileiro: a figura da índia com um seio só evoca os antigos mitos das guerreiras amazonas, enquanto o índio, embora paramentado de cocar e saia de penas, é representado barbado como um europeu. Os demais casais parecem bem mais pacíficos, sendo o da estampa onze exatamente igual aos Tapuias domesticados representados na Configuração da entrada da barra…. A estampa dez é um tanto mais curiosa em termos de composição, pois tem a mesma figura espelhada, recurso também utilizado na Figura 15. A presença de elementos vegetais e alguma sugestão de relevo, que é comum às quatro ilustrações, concorre para a criação de sentido na imagem, reforçando o pressuposto de que o habitat do indígena é o ambiente natural, ainda não transformado pela civilização. De certo modo, esses atributos alegorizam os personagens representados, constituindo-se em distantes reminiscências das pinturas etnográficas de Albert Eckhout (1610-1666). Sucedem-se aos casais indígenas outras três ilustrações de mulheres sendo transportadas [Figuras 26 a 28], sendo a primeira numa rede, e as demais por escravos negros que portam as famosas cadeirinhas nos ombros. A estampa doze [Figura 26] é semelhante à figura central da prancha da Configuração da entrada…, embora lá os carregadores sejam negros. Já na estampa treze [Figura 27], a figura central do grupo das três mulheres que seguem a cadeirinha, que Lygia Cunha (1960) identifica como sendo escravas, é também idêntica à mulata de Elevação e fachada. O grupo da estampa quatorze [Figura 28] se repete na mesma obra relativa ao prospecto de Salvador. É importante assinalar que o tema das cadeirinhas encontra forte ressonância no imaginário sobre a sociedade portuguesa no oriente desde o século XVI. Tanto Chaudhuri quanto Russell-Wood21 nos lembram que o desejo de enriquecimento e distinção social era o principal mote dos portugueses que se dirigiam aos Estados da Índia, e que a ostentação pública era prática corrente da sociedade lusa no ultramar. Nesse contexto, os meios de transporte serviam a distinguir os nobres e fidalgos, que se faziam carregar em palanquins, seguidos de séquitos de escravos.

Figuras 30 a 33 – Carlos Julião (atribuído a). Estampas 15 a 18 de Ditos de figurinhos de brancos e negros…, sem data (século XVIII). Aquarela sobre papel. Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro.
Figuras 34 a 37 – Carlos Julião (atribuído a). Estampas 19 a 22 de Ditos de figurinhos de brancos e negros…, sem data (século XVIII). Aquarela sobre papel. Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro.
Nas estampas dezoito e dezenove, são apresentadas cenas com personagens que interagem [Figuras 33 e 34]. A primeira, aparentemente uma cena de rua, nos apresenta um negro que serve leite a uma senhora sendo ambos observados por um homem (semelhante à figura masculina da estampa quinze). A outra é definida por Cunha (1960) como sendo uma cena de caça aos patos e não parece ter muita relação com as demais. As vestimentas de mulheres brancas reaparecem nas estampas de vinte a 22 [Figuras 35 a 37], também caracterizadas pela repetição do mesmo personagem que tem apenas o traje, os ornamentos e o posicionamento das mãos alterados. Na estampa 23 [Figura 38], vemos outra cena classificada por Cunha como uma “cena romântica”, em que um homem de bengala, “vestido à moda do século XVIII” (Cunha 1960), entrega a uma jovem uma carta onde se lê: “À Sra. Joanna Rosa”. Mais um casal branco ocupa a estampa 24 [Figura 39], sendo a figura masculina semelhante às que ilustram as estampas dezesseis e dezessete. A estampa 25 [Figura 40] nos apresenta duas figuras femininas que bem poderiam ser comparadas novamente à mulata de Elevação e fachada. A partir da estampa 26, todas as demais se referem a personagens negros. As cinco primeiras, de 26 a 30 [Figuras 41 a 45], são dedicadas exclusivamente aos trajes, enquanto as quatro seguintes, de 31 a 34 [Figuras 46 a 49], colocam em cena os negros vendedores de rua. Reencontramos aqui a vendedora de frutas em versão idêntica à de Elevação e fachada, como também o vendedor de leite do mesmo prospecto de Salvador, e a vendedora de doces da Configuração da entrada da barra de Goa… em versões ligeiramente alteradas. Curioso notar que os vendedores de rua são figurados de maneira a incorporar diversas sugestões de movimento, ao contrário dos demais personagens vistos até aqui. As estampas 35 a 39 [Figuras 50 a 54] talvez sejam as ilustrações mais reproduzidas deste conjunto, sempre utilizadas quando se trata de ilustrar textos sobre festas no período colonial no Brasil. De fato, elas se reportam às festas de encenação da coroação dos reis e rainhas do Congo ligadas às Irmandades de Nossa Senhora do Rosário do Pretos. São também as estampas que mais diferem, do ponto de vista do estilo, das demais ilustrações do manuscrito, visto que englobam diversos personagens em séquito com variada movimentação corporal e adereços. Figuras 38 a 41 – Carlos Julião (atribuído a). Estampas 23 a 26 de Ditos de figurinhos de brancos e negros…, sem data (século XVIII). Aquarela sobre papel. Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro.
Figuras 42 a 45 – Carlos Julião (atribuído a). Estampas 27 a 30 de Ditos de figurinhos de brancos e negros…, sem data (século XVIII). Aquarela sobre papel. Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro.
Figuras 46 a 49 – Carlos Julião (atribuído a). Estampas 31 a 34 de Ditos de figurinhos de brancos e negros…, sem data (século XVIII). Aquarela sobre papel. Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro.
Muito do encanto dos desenhos desta série está justamente na miniaturização desses personagens, tratados cada qual com suas roupas coloridas, seus instrumentos musicais, adornos de cabeça e movimentos de dança. Nas estampas 36 e 39, é curioso notar como, diante de um número maior de figuras, o autor as compõe individualmente, fazendo com que a conformação da “cena” resulte da somatória desses elementos. As figuras não estão submetidas a nenhuma ordenação espacial prévia, ao contrário, o seu posicionamento no papel é que conforma o espaço. Vale notar ainda que essa espécie de guarda-sol sob o qual caminham o rei e a rainha no cortejo é um conhecido atributo dos reis africanos, bastando mencionar aqui dois exemplos em que ele se faz presente: a tapeçaria O rei negro carregado em triunfo, da série Nouvelles Indes (Manufatura Gobelins) e a Alegoria da África [Fig.59], gravada a partir de desenho de Charles Le Brun (1619-1690). As últimas ilustrações do álbum fazem referência ao trabalho de extração nas “catas” de diamantes, possivelmente do Serro do Frio (Diamantina), conforme se lê no título do volume. Vemos então, na estampa 40 [Figura 55], os negros quebradores de pedras, que reaparecem na parte esquerda da estampa 41 [Figura 56], uma vista mais abrangente e que contempla mais etapas da técnica de extração. A lavagem do cascalho é representada na estampa 42 [Figura 57], caracterizada pela presença de uma estrutura construtiva desenhada em perspectiva extraordinariamente acentuada, que se constitui visualmente num estranho paralelepípedo encravado numa paisagem de colinas e volumes delineados com maior graça. Ilustração semelhante surge no início do século XIX no livro Travels in the interior of Brazil (1812) do mineralogista britânico John Mawe (1764-1829) [Figura 60], o primeiro estrangeiro a ter autorização para visitar o distrito aurífero de Minas Gerais. Por fim, a ilustração 43 [Figura 58], que encerra os Ditos de figurinhos de brancos e negros…, nos apresenta um escravo despido para ser inspecionado pelos feitores. Dentre as 43 ilustrações comentadas, dezessete (cerca de 40%) referem-se exclusivamente aos modos de vestir de diferentes extratos da população do Brasil, incluídos aqui os figurinos militares. Outros temas envolvem tipos indígenas (dos mais selvagens aos mais civilizados), ilustrações relativas a práticas sociais (entre os quais meios de transporte, vendedores ambulantes, festas africanas), além de uma importante (e lucrativa) atividade extrativa. Já tivemos oportunidade de notar a importância que Julião confere a todos os elementos constitutivos do traje e à eventual presença de marcas identitárias como caracterizadores dos personagens representados. Em geral, a figura prescinde de cenário, só utilizado nos casos em que a presença de outros elementos narrativos colabora para a criação de sentido na imagem. Figuras 50 a 54 – Carlos Julião (atribuído a). Estampas 35 a 39 de Ditos de figurinhos de brancos e negros…, sem data (século XVIII). Aquarela sobre papel. Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro.
Figuras 55 a 58 – Carlos Julião (atribuído a). Estampas 40 a 43 de Ditos de figurinhos de brancos e negros…, sem data (século XVIII). Aquarela sobre papel. Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro
Viemos até aqui examinando as obras de Julião no sentido de avaliar em que medida poderíamos estar diante de um trabalho fundado em codificações da representação e quais tradições poderiam estar ali implicadas. Resta indagar sobre a motivação de Carlos Julião na constituição deste conjunto de ilustrações, organizadas em forma de álbum. Convém ter em vista que subentende-se na própria noção de álbum que os motivos tenham sido apreendidos no mundo e reorganizados numa outra ordem. Assim sendo, é possível considerar que o álbum da FBN tivesse sido composto tendo em vista um destinatário? A este respeito, Lygia Cunha comenta:
o conjunto iconográfico foi preparado por Carlos Julião no período em que, viajando por plagas distantes, ia reunindo o que encontrava de mais característico, com o intuito de organizar um álbum de curiosidades, talvez para presenteá-lo a um superior hierárquico, hipótese plausível à vista do assunto que ilustra a prancha nº 1.
De fato, a composição alegórica que abre o volume leva a pensar numa possível dedicatória, cujo destinatário talvez fosse o próprio brigadeiro Rafael Pinto Bandeira. Já tivemos a oportunidade de verificar que Bandeira permaneceu em Lisboa por quase todo o ano de 1789. Sendo este um militar, assim como Julião22, nessa altura capitão de uma das companhias do Regimento de Artilharia da Corte, é bastante razoável supor que ambos tenham se conhecido durante este período.
3. As Figurinhas na Pintura
Colabora também para esta hipótese a existência de duas pinturas que atualmente pertencem ao acervo do Instituto Ricardo Brennand, em Recife [Figuras 61 e 62]. As telas foram adquiridas na Sotheby’s de Nova York e constituíam o lote 400 do leilão de 28 de Janeiro de 1999 (Sotheby’s 1999) 23. No catálogo, foram intituladas apenas Peoples of Lisbon and Portugal, Rio de Janeiro, Brazil, and Angola.
De fato, não há como não relacionar as pinturas em questão à obra de Julião, já que elas nos apresentam um elenco de figuras humanas, entre as quais é possível reconhecer alguns personagens com que já nos deparamos nas obras analisadas anteriormente. Além disso, os tipos estão organizados na mesma estrutura do “desfile” que tivemos oportunidade de observar na Configuração da barra de Goa, incluindo-se agora, surpreendentemente, tipos provenientes do Reino e não apenas das Conquistas, como ocorria nos demais trabalhos. Vale notar, contudo, algumas diferenças significativas com relação a certas soluções formais adotadas, como, por exemplo, a do suporte em que se assentam os personagens, bastante diversa das obras já vistas, bem como o fato de que algumas das figuras apresentam muito maior expressividade em termos gestuais e de sugestão de movimento corporal.
Cada uma das telas é dividida em três faixas horizontais
Cada uma das telas é dividida em três faixas horizontais em que os tipos são apresentados com legendas em português e italiano. Na faixa superior da pintura 61, ocupando posição central no contexto da composição, vê-se o símbolo da cidade de Lisboa – a caravela com dois corvos24 – contornada por um ornamento dourado ao estilo de uma talha rocaille, encimado por uma coroa real. Abaixo deste brasão de armas, lemos a seguinte inscrição: “Quadro que representa as Armas da Cidade de Lisboa e as diversas maneiras de vestir de Portugal principalmente da Corte. Quadro che rapresenta l’armi della Cittá di Lisbona e le diverse maniere di vestire di Portugallo e particolarmente di Lisbona, 1779”. Esta inscrição permite, portanto, datar as telas do ano de 1779, o que indica que são contemporâneas da prancha da Elevação e fachada.
- Sargento Mor das Minas / Sargento Maggiore delle Mine del Brasile
- Sargento Mor Auxiliar / Sargento Maggiore della Milizia Urbana
- Capitão Mor Auxiliar / Capitano Maggiore della Milizia Urbana
- Dezembargador / Un Ministro del Tribunale
- Porteiro da Caza / Portiero del Palazzo
- Soldado de Malta / Soldato di Malta
- Sargento Auxiliar / Sargento della Milizia Urbana
- Soldado Auxiliar / Soldato della Milizia Urbana
- Huma mulher de caza com a sua / Una Femina con il Capotto con la Sua
- Escrava / Schiava
- Mulher do Porto / Femina del Porto
- Huma Parteira / Mammana
- Huma Fidalga a pé em ta feira Santa / Una Signora vestita di Settimana Santa a piedi e facendo la visita delle Chiese il Giovedí Sto.
- Huma mulher de manto com a sua / Una Femina con il manto e la sua
- Criada / Serva
- Huma Regateira / Una Regattera
- Huma Frialeira / Una Pescatoia, che vende pesce per la Cittá
- Hum andador de Confraria, q. pede esmola / Un Fratello de Congregazione che domanda la elemosina
- Huma Saloia vestida de Estio / Una Saloia vestita d’Estate
- O Meirinho da cidade com os seus Prettos em dia de bando, p.a alguma Festa / Un Officiale della Cittá o sia Banditore con i suoi due Servi
- Saloia a cavallo vestida de Inverno / Saloia a cavallo vestita d’Inverno
- Huma Colareja / Una venditrice di Frutti
- Huma Galinheira / Una venditrice di Galline
- Hum Mariola de Alfandega / Un Facchino della Dogana
A primeira faixa (figura 61), portanto, é ocupada por seis personagens militares, semelhantes aos que vimos no manuscrito da FBN. Ladeando as armas de Lisboa, vemos duas figuras ligadas ao poder judiciário: o Desembargador e o Porteiro. Entre os militares, note-se a presença de um oficial negro com uniforme de regimento de Minas Gerais, além de um soldado designado como “de Malta”, certamente ligado à Ordem militar dos Cavaleiros de Malta. Os demais oficiais são o capitão, sargento-mor, sargento e soldado de tropas auxiliares, responsáveis pela manutenção da ordem na cidade. Em conjunto, as figuras parecem evocar um sentido de autoridade. Já no segmento seguinte da figura 61, todas as personagens são mulheres, sendo que a fidalga trajada para Semana Santa ocupa a posição central, abaixo das armas da cidade. A seção é composta por outras três senhoras, uma proveniente do Porto, outra acompanhada de sua criada e outra de sua escrava. É de estranhar que se faça referência a uma escrava urbana neste contexto, já que a escravidão havia sido abolida no Reino e na Índia em 1761. Além da parteira, situada ao lado da fidalga, as duas últimas figuras à direita da tela introduzem já o tema dos vendedores de rua, tratado também na seção seguinte. No segmento inferior, vemos novamente em posição central um personagem que denota autoridade: o Meirinho, um administrador local e executor de sentenças. Ele está acompanhado de “seus Prettos em dia de bando”, ou seja, tipos vestidos e paramentados para a declaração pública de um decreto ou de pena imposta a um transgressor. Os demais personagens masculinos são o carregador de alfândega e o irmão que pede esmolas para a Confraria. Quatro figuras femininas completam a pintura: a “saloia”, ou camponesa, em trajes de verão e de inverno, além de duas vendedoras de rua. No conjunto da pintura, contamos, portanto, seis militares, três figuras masculinas que representam autoridade, quatro vendedoras ambulantes, oito trajes femininos (fidalga, senhoras, a criada, a escrava, a parteira e a camponesa), além do irmão pedinte e do carregador de alfândega. A segunda pintura (figura 62) também é dividida em três faixas horizontais, mas tem seus 22 personagens distribuídos de maneira menos simétrica e ordenada. A correspondência com desenhos de Julião se observa aqui com mais clareza que na tela vista anteriormente. As legendas que identificam os personagens são: A primeira faixa da figura 62, portanto, é ocupada por seis personagens militares, semelhantes aos que vimos no manuscrito da FBN. Ladeando as armas de Lisboa, vemos duas figuras ligadas ao poder judiciário: o Desembargador e o Porteiro25.
As legendas que identificam os personagens são:
- o do Rio de Jan.o / Zerbinetto del Rio di Jan.o
- Huma a de Rio de Jan.o / Una Sig.a del Rio di Jan.o
- O modo com q vem o Preto do Mato a despachar na Alfandega de Angola p. se Venderem / Modo como viene un Negro dal Bosco […] nella Dogana di Angola per vendersi
- Mocamba da Baya / Serva della cittá della Baya
- Mocamba, q vem a ser molata, se tratta com gravidade / Serva, chiamata Mulatta che si tratta con Pulizia
- Mocamba do Rio de o / Serva del Rio di Jan.o
- Mocamba do Rio de o / Serva del Rio di Jan.o
- Mocamba do Rio de o / Serva del Rio di Jan.o
- Como andão nas Cadeyrinhas as Snr.as do Rio de Jan.o, as q. vão atrás são as Mocambas que as acompanhão sempre / Maniera che vanno nella Segette le Signore di Rio de Jan.o e quelle che vanno dietro sono le serve che l’accompagnano sempre
- Mocamba […] / Serva che va […] di Notte a […]
- Mocamba em desfarce / Serva trasvestita
- Mocamba do Rio de o / Serva del Rio di Jan.o
- Como costumão estar as Mulheres em suas Cazas no Rio de o / Come siano le donne in sue Caze nel Rio di Jan.o
- Pretta Mocamba do Rio de o / Serva di Rio di Jan.o
- Preto vende Agua no Rio de Jan.o / Negro che vende acqua nel Rio di Jan.o
- Mocamba di Angola / Serva di Angola
- Preta q. vende limonada no Rio de Jan.o / Negra che vende lemonata nel Rio di o
- O Modo de Carregarem os pretos no Rio de Janeiro / La Maniera di […] li Negri nel Rio di Janeiro
- O modo com andão os Pretos em Angola / La maniera che vanno li Negri in Angola
- Preta vende doces no Rio de Jan.o / Negra che vende dolci nel Rio di Jan.o
- Preta vende ovos no Rio de Jan.o / Negra che vende ovi nel Rio di Jan.o
- Mocamba preta de Baya / Serva Negra della Baya
Diferentemente da pintura anterior (figura 61), a parte central de cada segmento desta obra é ocupada por grupos de personagens:
- na faixa superior, vemos uma cena de mercado de escravos em Angola;
- na faixa central, uma cadeirinha sendo levada por dois escravos e seguida por criadas (que corresponde à estampa treze do álbum da FBN, ver Figura 27);
- na faixa inferior, um grupo de negros carregando um barril.
Apenas três personagens ocupam a faixa superior: um cavaleiro e uma senhora, ambos do Rio de Janeiro, e uma mucama da Bahia. No segundo segmento, temos sete “mocambas” – vocabulário desconhecido em Bluteau, mas que possivelmente seja sinônimo de “mucama”, ou serva de casa –, todas brancas, sendo quatro delas provenientes do Rio de Janeiro. A última personagem deste segmento é uma mulher com os trajes que usa dentro de casa. A faixa inferior é ocupada exclusivamente por personagens negros. Entre eles, vemos novamente três “mocambas”, sendo uma do Rio de Janeiro, uma da Bahia e uma de Angola, mais quatro vendedores de rua (água, limonada, doces e ovos), além de uma personagem que exibe o traje usado pelos nativos em Angola. Diante disso, resta dedicar um pouco mais de atenção à questão da autoria das telas. Nesse sentido, há dois caminhos a considerar: aceitar ou não a atribuição feita a Carlos Julião. Se consideramos que as obras tenham sido de fato executadas por ele, o primeiro dado a atentar é a datação. Ainda que apenas uma delas seja datada, pode-se admitir que sejam ambas as telas de 1779, o que nos leva a concluir que elas foram forçosamente pintadas enquanto Julião estava a serviço da coroa portuguesa nas possessões ultramarinas. Neste período, aliás, ele provavelmente estava no Brasil, já que a data coincide com a da prancha da Elevação e fachada. Deduz-se daí que todo o elenco de tipos provenientes do Reino já estivesse então organizado quando Julião deixou Portugal em 1774, o que implica que o hábito de desenhar visando a composição de “um álbum de curiosidades” é, portanto, anterior às viagens “às plagas distantes”, como queria Cunha (1960). O que nos leva a outra importante conclusão: o interesse de Julião pelo registro de tipos humanos não foi despertado pelo que mais tarde se chamou de “exotismo” dos povos do ultramar português. Ao contrário, ao que parece, trata-se de um interesse que antecede a viagem às Conquistas, e que talvez esteja informado por tradições visuais internacionais, tais como os livros de trajes, a literatura de viagem ilustrada e a cartografia. Caberia investigar de que forma Julião apreende essas tradições. Tendo em vista ainda a concordância com a atribuição das pinturas a Julião, há outros dois aspectos que precisam ser abordados. O primeiro deles diz respeito à suposta habilidade de um militar para o ofício da pintura a óleo. Ora, sabemos, e teremos oportunidade de voltar a esse assunto adiante, que o exercício do desenho fazia parte da formação militar no século XVIII português, assim como a instrução no uso da aquarela, ambos instrumentos de grande utilidade para a atuação desses profissionais, em especial aqueles ligados diretamente à edificação. O desenho e a aquarela eram de fácil manipulação em campo, ou seja, fora das condições controladas de trabalho em gabinete, e, ao mesmo tempo, eram de grande eficácia em “demonstrar”, “fazer ver” aquilo que era necessário comunicar aos superiores. Não à toa existem tratados que estabelecem uma normativa para o desenho militar no Setecentos português26.
Entretanto, sendo ambas produções típicas do século XVIII, é inevitável que tanto as pinturas de castas quanto as obras de Carlos Julião estejam de alguma forma imbuídas de uma mentalidade ilustrada, que almeja classificar e ordenar o mundo. Essa intenção subjacente torna visíveis organizações sociais por si hierárquicas. Em Carlos Julião, inexiste a intenção de compor um quadro completo de todas as possibilidades de tipos sociais do mundo português do reino e ultramar e, dessa forma, dar a ver uma estrutura social. Mas é possível sim entrever essa estrutura, que se insinua nos modos mais ou menos sofisticados de vestir, no fato de todos os negros carregarem algo nos ombros ou na cabeça e nenhum dos brancos carregar nada, ou nos brancos que supervisionam o trabalho dos negros nas minas, ou no fato de os indígenas estarem próximos dos recursos naturais. Nas pinturas de castas, ao contrário, existe um programa compositivo a ser cumprido – as dezesseis possibilidades de cruzamento entre as três raças, representadas por meio de casais e um filho – que acaba por revelar o quanto as condições mais ou menos prósperas de vida na Nova Espanha do Setecentos eram diretamente proporcionais à quantidade de sangue branco trazido pelo tipo que representava aquele determinado extrato social. Por outro lado, sendo as castas um gênero propriamente pictórico, é natural que esteja referenciado por convenções da pintura erudita28.
Biografia e Carreira Militar de Carlos Julião
Carlos Julião é mais um entre os inúmeros funcionários que a Coroa portuguesa colocou “on the move” – para usar a expressão de Russel-Wood (1998) –, a circular pelo espaço colonial espalhado em quatro continentes. Definitivamente, portanto, não é personagem citado em dicionários ou compilações de biografias de homens célebres. Os dados biográficos que podem ser comprovados por documentação a seu respeito são ainda escassos e, para uma reconstituição cronológica de sua trajetória, é necessário recorrer a fontes bastante dispersas. O trabalho pioneiro no sentido de esboçar uma biografia de Julião foi publicado por Lygia Cunha em 1960, como introdução à edição facsimilar do álbum Riscos iluminados de figurinhos de brancos e negros…, pertencente à FBN, Rio de Janeiro (Cunha 1960). Silvia Hunold Lara (2002 e 2007) levou adiante em grande parte a biografia já traçada por Cunha, acrescentando-lhe algumas hipóteses, como, por exemplo, aquelas relativas ao local de morte do artista. Passo fundamental para o aprofundamento da questão foi dado por Maria Manuela Tenreiro (2007 e 2008), que, a partir de exame de documentação nos arquivos portugueses, trouxe à tona o manuscrito da Biblioteca Nacional de Portugal (de que falaremos adiante), assim como várias outras informações de relevo. Mais uma fonte a destacar nesse quesito é o breve texto de Carlo Burdet (1986), o primeiro a fazer notar a proximidade entre Julião e o coronel Carlo Antonio Napione (1756-1814) a partir de 1801, quando o metalurgista e mineralogista turinense passou a servir o exército português como inspetor do Arsenal Real do Exército. Tanto Cunha, quanto Lara e Tenreiro consideram que Julião desempenhasse funções de engenheiro dentro dos quadros do exército português, conforme se pode deduzir das afirmações: “dos dados que nos chegaram às mãos não consta a data que obteve o exercício de engenheiro” (Cunha 1960), ou “an engineer by training”29 (Lara 2002) ou ainda “Julião who served in the Portuguese colonial army as an engineer” (Tenreiro 2007). Sendo assim, no intuito de compreender adequadamente a gênese da obra iconográfica de Carlos Julião, torna-se prioritário avaliar sua presença junto ao contexto de atuação dos engenheiros militares no Setecentos português.
1. Origem e Formação
Conforme está declarado em vários dos documentos consultados, Julião nasceu na cidade de Turim, então capital do Reino da Sardegna31, em 1740.
2. Início de Carreira no Exército
Também não pode passar despercebido o fato de Julião ter se transferido para Portugal num momento de profunda reestruturação do exército luso, fato esse que merece algumas considerações. A segunda metade do século XVIII corresponde a um período de modernização e organização do exército enquanto instituição em Portugal, ao mesmo tempo em que revela a emergência do militar como categoria social naquele país. É Boxer quem nos lembra da total impopularidade e falta de prestígio que o serviço militar tinha até então entre os portugueses, notoriamente pelo fato de a Coroa ser “mau patrão”, pagando “mal, tarde, ou nunca” (2002:310-325). Outro fator que colaborava para a má reputação do serviço militar era o sistema de recrutamento empreendido pelas “levas”, que percorriam o interior do país praticamente arrastando à força os jovens aptos a servir no exército. Segundo afirma Marques (1981), até o período pombalino, subsistiam ainda práticas no âmbito do exército que faziam com que sua organização reproduzisse uma estratificação própria da sociedade portuguesa. Grosso modo, a alta nobreza, por tradição e hereditariedade, ocupava os postos de comando, enquanto o restante da oficialidade provinha de uma pequena aristocracia provincial, que podia contar com o favor de algum “grande”. Os quadros se completavam com aventureiros e marginais que se ofereciam como voluntários, ou soldados que haviam podido subir um pouco na hierarquia aproveitando o sucesso de alguma campanha. A inoperância do exército já tinha sido sentida em parte por ocasião do terremoto que assolou Lisboa em novembro de 1755 (Marques 1981:30), quando os oficiais não foram capazes de conter o caos que rapidamente se espalhou pela cidade. Mas o processo que desencadeou a necessária profissionalização das forças militares em Portugal foi a Guerra do Pacto de Família, ou Guerra Fantástica, como ficou conhecida a parcela da Guerra dos Sete Anos (1756-1763) que se desenrolou em território luso entre maio e novembro de 1762. O conflito originou-se da recusa de d. José I em aderir ao pacto de família dos Bourbons da França, Espanha, Nápoles e Parma contra a Inglaterra e Prússia. Uma vez desobedecido o ultimato para que Portugal fechasse seus portos aos navios ingleses, o país foi invadido por tropas franco-espanholas através da fronteira de Trás-os-Montes, em 5 de maio de 1762. Por essa época, o exército português via-se já há um bom tempo reduzido à metade de seus efetivos, “todos mal armados e pior disciplinados” (Cordeiro 1895:191). Em 1761, não se pagava a tropa há um ano e meio, e os soldados recorriam frequentemente à mendicância e à violência (Marques 1981:31). Diante do número alarmante de deserções, algumas medidas emergenciais foram tomadas com sucesso pela administração do então conde de Oeiras no sentido de aumentar os efetivos, como, por exemplo, o pagamento de soldos atrasados. Até setembro de 1762, o exército saltará de dezoito para sessenta mil homens. No entanto, como ocorrera com frequência no passado, diante do conflito, foi necessário recorrer ainda à ajuda estrangeira para completar os quadros militares e armá-los adequadamente para o confronto com os invasores. O rei George III da Inglaterra enviou a Portugal um efetivo de oito mil homens, acompanhados de vários oficiais superiores, que seriam alocados em postos de comando do exército português. Também recomendado pelos ingleses, chega ao país o personagem que assumiria um papel de protagonista no processo de modernização das forças militares em Portugal, o conde de Schaumburg-Lippe (1724-1777)38, que d. José I fará marechal-general e comandante-em-chefe do exército luso-britânico em 10 de julho de 1762.
3. Embarque para os Estados da Índia
Ainda em referência aos “desembarques” citados no seu Processo Individual, consta que Julião teria também viajado aos “Brasis, Índia e China”, embora nesse documento as datas de tais viagens não sejam mencionadas. Mais uma vez, recorremos à documentação constante em outros arquivos, no intuito de esclarecer o caráter das missões de Julião no ultramar português. Comecemos por destacar uma carta do coronel Weinholtz endereçada ao conde de Lippe e datada de Faro, 21 de maio de 1777. Nela, o coronel do Regimento de Artilharia de Lagos relata que Mon ancien Régiment fût divisé l’an 1774 en grands Détachements, dont les premiers embarquèrent sur les vaisseaux du Roy, et les derniers, qui étaient de cinq Compagnies, se rendirent par ordre de Sa Majesté dans le pays-ci, où, avec d’autres semblables Détachements tirés des autres Régiments d’Artillerie, se forma, sous les ordres de M. Ferrier, un nouveau Régiment d’Artillerie.55
Sabemos que Julião só retornaria a Lisboa em julho de 1780. Visto que a Elevação e fachada, obra analisada no capítulo anterior, traz a data de maio de 1779, parece bastante razoável supor que a nau Nossa Senhora da Madre de Deus, em que o oficial servia, tenha ancorado em Salvador no seu retorno da Ásia. Aliás, convém lembrar, conforme aponta Boxer (2002: 234), que a coroa portuguesa sempre tentou evitar e mesmo proibir que os navios da Carreira da Índia aportassem no Brasil. Concorriam para essa proibição o grande número de deserções ocasionado pela escala, além do estabelecimento de copioso comércio ilegal de produtos orientais em troca de ouro e tabaco brasileiros. No entanto, em meados do século XVIII, sob diversos pretextos, que iam da necessidade de reparos, ou da falta de provisões às más condições do tempo, a parada no Brasil, e com maior frequência em Salvador, tornou-se uma prática, e foi mesmo ratificada pelo governo português. Se considerarmos que a viagem de Salvador a Lisboa durava por volta de dois meses e meio a três meses, e sabendo que Julião chegou a Portugal em julho de 1780, é fácil supor que a nau tenha deixado o Brasil por volta de abril deste ano. Quanto à data de chegada ao país, contudo, só podemos por enquanto trabalhar com suposições. Diante de uma viagem que levava de seis a oito meses, os navios que deixavam Goa em direção a Lisboa procuravam zarpar ao final de dezembro, na tentativa de evitar chegar à latitude do Cabo da Boa Esperança no auge do inverno, quando a navegação é bastante dificultada pelas tempestades na região. Se é que essa regra se cumpriu no caso da nau Madre de Deus, os viajantes devem ter aportado no Brasil em março ou abril de 1779. Isso nos garante que Julião tenha permanecido no país ao menos por cerca de um ano. Da mesma forma, permanecemos no campo das hipóteses no que diz respeito aos locais pelos quais teria passado no território brasileiro. É possível auferir de sua produção iconográfica a estadia em Salvador (Elevação e fachada), além de Rio de Janeiro e do distrito diamantino do Serro do Frio, em Minas Gerais (Figurinhas de brancos e negros, da FBN). Por outro lado, em correspondência trocada entre o governador de Pernambuco, d. Tomás José de Melo, e o secretário Martinho de Melo e Castro, datada de 19 de dezembro de 1788, encontramos uma menção ao nome de Julião. Na carta, o governador enfatiza a necessidade de reorganização dos regimentos de Olinda e Recife, assim como queixa-se da decadência do corpo de artilharia. Segundo ele, a solução seria trazer para Pernambuco um oficial com patente de capitão, “para o qual posto, me lembro de um muito hábil, que é Carlos Julião, Capitão de uma das Companhias graduadas do Regimento de Artilheria da Corte”. A citação poderia sugerir que Julião tivesse estado também em Pernambuco, onde teria conhecido o governador. Contudo, sabemos que d. Tomás José de Melo tomou posse do governo da capitania em dezembro de 1787, permanecendo no cargo por onze anos. Por esta época, nosso oficial já estava de volta a Lisboa, onde é mais provável que tenha ocorrido o encontro dos dois. Fatos importantes ocorreram em Portugal enquanto Julião esteve servindo na Índia, alguns dos quais teriam impacto no prosseguimento de sua carreira no exército. Em 1776, por exemplo, foi ordenada a incorporação de todos os integrantes do antigo Regimento de Artilharia de Lagos (de que Julião fazia parte) ao Regimento de Artilharia da Corte. Por outro lado, a morte de d. José I em fevereiro de 1777 traria ao trono “a piedosa” d. Maria I, provocando o afastamento do até então todo-poderoso ministro, o marquês de Pombal, e dando início ao período conhecido como a “Viradeira”. No que diz respeito ao exército, a Viradeira representou um certo recuo com relação ao processo de profissionalização do militar que havia sido deflagrado durante o período pombalino. O exército verá voltar à cena, em postos de comando, os antigos aristocratas, como também se generalizará um certo clima de animosidade dirigida aos estrangeiros que serviam como oficiais.
4. O retorno a Portugal e a busca de reconhecimento
É claro que um longo período de serviços nos domínios ultramarinos habilitava os envolvidos a requisitar benefícios em forma de mercês e promoções à Coroa, e não há porque não considerar que Julião tenha se fiado nessa prática, que remontava ao tempo das Descobertas, para esperar por recompensas que julgava merecidas. Com efeito, desde seu retorno a Lisboa em 1780, nosso oficial inicia uma sequência de correspondências em que solicita mercês como pagamento pelos serviços prestados. Em primeiro lugar, reclama a patente de capitão que lhe havia sido prometida e que, segundo ele, só não lhe fora concedida por se achar ausente da Corte. Como fica bastante claro na seguinte passagem, Julião sentia-se preterido, pois, a não ser pelo embarque para que o nomearam na Nau Nossa Senhora da Madre de Deus, o Sup.te seria Cap.m de Bombeiros na promoção que se fez no seu regimento no ano de 1776, em a qual, por efeito de se achar em distante serviço, foi preterido. Sendo certo que o mesmo General McLean62 deu sua palavra de honra ao Coronel Dalemcour63 de que, logo que o Sup.te chegasse da Índia, o faria Cap.m de Bombeiros, como mostra pela atestação do mesmo Dalemcour.
5. Arsenal Real do Exército
Nesse ano de 1795, Julião recebe sua primeira patente de oficial superior, a de sargento-mor, agora com exercício no Arsenal Real do Exército. Neste local, passaria a se desenrolar o restante de sua carreira militar. Quando Julião foi transferido para o Arsenal do Exército, este era um dos maiores estabelecimentos fabris de Portugal, empregando mais de mil funcionários distribuídos em 25 diferentes oficinas. Ali se concentrava todo o processo de confecção de material de guerra (armas e munições) para suprimento do exército e da marinha do país, assim como a logística de seu armazenamento e distribuição para as forças militares do Reino e ultramar. Em suas oficinas, eram produzidos ainda todos os componentes dos uniformes de oficiais servindo na corte e colônias, além de outros artefatos, como, por exemplo, instrumentos cirúrgicos. O Arsenal abrigava ainda um importante centro de formação artística, a Aula de Desenho, Gravura e Lavra de Metais, tendo sido confeccionadas em suas oficinas duas das obras mais representativas da arte portuguesa do final do Antigo Regime: a estátua eqüestre de d. José I e a baixela de prata oferecida pelo regente d. João ao duque de Wellington em 1814. No último quartel do século XVIII, o Arsenal compreendia um complexo de três edifícios: as chamadas Fundições de Baixo, de Cima e de Santa Clara. A Fundição de Baixo funcionava no edifício hoje ocupado pelo Museu Militar de Lisboa, que veio a substituir antigos depósitos de artilharia destruídos pelo terremoto de 1755. A Fundição de Cima fora instalada em edifícios fronteiriços ao templo de Santa Engrácia, atual Panteão Nacional, adaptados no início dos anos 1760 para abrigar a fabricação de bocas de fogo. Na década de 1770, o conjunto foi acrescido da Fundição de Santa Clara, construída sobre as ruínas do antigo convento de clarissas datado do século XIII, um dos mais importantes edifícios conventuais de Lisboa, totalmente arrasado pelo terremoto. Ali ficaram concentradas as fábricas de armas, bem como casas para habitação de oficiais. A organização do Arsenal, assim como o incremento substantivo de sua atividade nesse período, deve ser entendida no contexto das reformulações conduzidas nas forças armadas portuguesas pelo conde de Lippe, responsável por renomear a antiga Tenência para Arsenal Real do Exército. Bartolomeu da Costa (1731-1801) também desempenhou um papel essencial no comando da instituição, que exerceu de 1762 até sua morte. Militar de carreira e engenheiro, Costa destacou-se como o mais notável fundidor de artilharia em Portugal, sendo responsável por regular os calibres das bocas de fogo e construir fornos especializados para as atividades fabris. Em 1774, foi promovido a brigadeiro e nomeado Intendente Geral das Fundições como reconhecimento pelos serviços prestados na fundição da estátua eqüestre de d. José I. Para entender as atividades de Julião no Arsenal, é necessário recorrer ao seu Processo Individual. Um parecer assinado por Bartolomeu da Costa, datado de 31 de março de 1800, é dirigido ao Ministro da Guerra e destaca as incumbências de Julião. No documento, lê-se que Julião foi designado por Sua Alteza Real para auxiliar o Regimento de Artilheria Francezes Emigrados, requisitando do Arsenal os géneros necessários para as reparações do trem deste regimento e dos armamentos da Armada Auxiliar Britânica. O parecer elogia o oficial por sua dedicação e zelo em todas as tarefas. Em 1800, aos 60 anos, Julião inicia o processo de requisição de nova promoção ao posto de tenente-coronel. Sua nomeação, justificada pelo tempo de serviço e pelas atividades realizadas no Inventário do Arsenal Real, foi concedida em 14 de novembro de 1802, embora a carta patente tenha sido emitida apenas em novembro de 1804. Por ocasião dessa solicitação, Julião redigiu um documento, atualmente anexado ao seu Processo Individual, preservado no AHM (Arquivo Histórico Militar). Nesse texto, ele lista suas principais conquistas no exército português, embora sem datas específicas. Esse documento foi utilizado como base por autores como Cunha (1960), Lara (2002 e 2007) e Tenreiro (2007 e 2008) para compor biografias de Julião. No ano de 1801, Carlos Julião aparece como tradutor de uma obra publicada pela Tipografia do Arco do Cego, intitulada Experiências e observações sobre a liga dos bronzes, que devem servir nas fundições das peças de artilharia, de Carlos Antonio Napion, tenente-coronel da Artilheria da Corte. A tradução, realizada por Julião, é creditada como: “Carlos Julião, sargento-mor com exercício no Arsenal Real. Lisboa na Typographia Chalcographica, Typoplastica e Litteraria do Arco do Cego. Anno MDCCCI.” Por Ordem Superior. Seu autor, o oficial Carlo Antonio Galeani Napione, era também natural de Turim e havia chegado a Portugal no ano anterior, a convite do secretário da Marinha e Ultramar, d. Rodrigo de Sousa Coutinho (1755-1812)80.
- Acajaiba / Acajaiba / Acajaiba Árvore grande do Brasil, espécie de Caju a que dão o nome de Cedro de St. Domingos. O tronco é tão grosso, que dele fazem canoas de 40 pés de comprimento, com 6 de largo. O pau é avermelhado, e também o há manchado de amarelo e branco, recebe bom polimento e dificilmente apodrece, dele se fazem móveis que comunicam seu suave cheiro às roupas. A casca é parda e grossa, as folhas pequenas de verde escuro, o fruto em forma de coração, sempre verde, encerra comumente 4 amêndoas muito amargosas cobertas de pele grossa.
- Baonilha / Vanille / Vanilla Arbusto que trepa pelas árvores a modo de hera, as folhas de verde claro agradáveis à vista, compridas, estreitas e pontiagudas. Depois de sete anos, dá umas bainhas que encerram grãozinhos miúdos, misturados com uma espécie de polpa escura balsâmica e muito cheirosa, que é o principal ingrediente do chocolate, ao qual comunica admiráveis propriedades. Há de três espécies que diferem no tronco, ou no diverso grão de maturidade. A primeira, dita Pompona ou Bova, tem o cheiro muito forte; a segunda, mais comprida, tem um cheiro delicioso, deste se usa com o nome de Baonilha legítima; a terceira tem pouco cheiro, a melhor é a do México ou Peru, a do Indostão é de uma grossura monstruosa e tem o cheiro de ameixa. Em outro tempo, este ingrediente servia para perfumar o tabaco, mas os cheiros estão, como as mais coisas, sujeitos à moda.
O Diccionario de Julião merece alguns comentários. A própria escolha do formato de dicionário para dispor a informação remete à estrutura da Encyclopédie de Diderot e d’Alembert, o grande paradigma da Ilustração na sistematização do conhecimento. O fato de ser uma “obra de summa instrucção”, como se afirma no título, também vem de encontro às expectativas e à orientação do iluminismo em Portugal, assim como no resto da Europa, sobre a divulgação de “conhecimentos úteis”. No Prólogo que introduz sua obra, Julião argumenta que “não se trata nesta descripção de systema algum Botanico, nem das virtudes Medicinaes das Plantas”, tarefa que compete aos grandes cientistas e não a um homem como ele, de “pequenas luzes”. Assim, o autor se preserva, em certa medida, da responsabilidade de, não sendo cientista, aventurar-se na realização de uma obra que resvala no estudo científico. Mais relevante é que, ao fazê-lo, Julião enfatiza a importância do saber prático, da experiência que ensina a reconhecer a utilidade e o uso apropriado dos recursos naturais à disposição. Das espécies incluídas no Diccionario, as árvores são aquelas a que o autor dedica mais atenção, afirmando que o “Conhecimento, e combinação da força e consistencia das Madeiras para qualquer construção, he por certo o ponto mais interessante, e principal objecto a que este tractado se dirige”. Certamente, a determinação de dados sobre a resistência das madeiras só poderia ser alcançada por meio de experiências, e, de fato, o autor alude no Prólogo a experiências desse gênero conduzidas no Arsenal. Possivelmente, se tratem dos mesmos experimentos a que se dedicava Napione, referidos por Burdet (1991). Carlos Julião prossegue reafirmando a importância das madeiras nos mais variados campos: nos arsenais da Marinha, para a construção de “Cadastes, Mastros, Vergas, Cavernas, lemes e taboados de Costados. Formalizão-se sobre as Agoas os monstruosos Edificios, que mais parecem Villas fluctuantes do que Navios”; nos arsenais do Exército, para a construção de “Maquinas, Engenhos, Reparos de Artilhieria, differentes Carros de Campanha, Coronha de Armas, e muitos petrechos pertencentes ao Trem de Artilharia e aos mais instrumentos Bellicos”; e na construção civil, para a confecção de “traves, Vigas, Pranchas, e Taboados”.Conclui dizendo que “tudo da madeira se aproveita: pois quando não serve para obras, serve para queimar, ou p.a fazer Carvão, e athe as proprias Cinzas nas barrelas se aproveitão”. Não deve passar despercebido que o estudo sobre madeiras naquele momento histórico condizia, conforme lembra Pataca (2006:396), com as novas preocupações manifestadas por d. Rodrigo de Sousa Coutinho ao assumir a pasta da Secretaria dos Negócios da Marinha e Ultramar em 1796.Bem, as preocupações não eram assim tão novas. Já desde a gestão de Melo e Castro, seu antecessor, debatia-se a questão da racionalização da exploração madeireira. Havia a consciência de que os recursos eram finitos, já que a própria produção de madeira no Reino escasseava.Os esforços de Coutinho se intensificaram, portanto, no sentido de combater as queimadas e o corte indiscriminado, regulamentá-lo e promover a exploração racional dos recursos, visando o seu melhor aproveitamento.Para tanto, despachou orientações a toda a “rede de informação” composta por naturalistas, governadores e a elite intelectual das colônias para que as propriedades das madeiras locais fossem cientificamente descritas, assim como planejada a otimização do seu uso. Além do incentivo ao estudo das madeiras, essenciais para a construção naval e para a manufatura de armas, Coutinho dedicou-se também à promoção de pesquisas sobre o salitre, matéria-prima da fabricação da pólvora. Vale lembrar que o contexto em que Coutinho assume a Secretaria era bem diverso daquele existente durante a gestão de Melo e Castro. As possibilidades de que Portugal, ou mesmo o Brasil, fossem invadidos pela Espanha ou pela França se tornavam a cada dia mais concretas, o que certamente colaborava para a ênfase dada pelo Secretário ao estudo desses materiais. O esforço de Julião na realização do Diccionario deve ser compreendido, portanto, nesse cenário. Também não deve ser desconsiderado o fato de que, já tendo traduzido a obra de Napione para a Tipografia do Arco do Cego, o oficial talvez almejasse ver seu próprio trabalho vir a público pela mesma casa editorial. Lembremos a relevância da iniciativa da criação da Casa Literária do Arco do Cego para a divulgação de pesquisas científicas no setecentos português. Embora de atuação efêmera – funcionou apenas entre 1799 e 1801 –, o Arco do Cego alcançou uma sistemática de publicação inédita na história do livro impresso em Portugal, conforme lembra Faria, constituindo-se num centro difusor de conhecimentos úteis voltados ao aperfeiçoamento de técnicas de agricultura, à modernização dos métodos de exploração de recursos naturais, a estudos sobre a flora brasileira, tradução de obras científicas para o português, entre muitos outros. Fazia parte de um projeto maior de cunho iluminista, encabeçado por Sousa Coutinho, que visava operar reformas e racionalizar a atuação do Estado. Na linha editorial promovida sob orientação do botânico frei José Mariano da Conceição Veloso (1742-1811), a economia agrícola e a história natural tinham papel preponderante. Diante disso, Julião talvez visse aí a chance de conseguir “a gloria de me constituir raccomandavel aos tão sabios Nacionaes”, como afirma no Prólogo do Diccionario, e ver reconhecido seu pendor científico. Afinal, a divulgação do seu estudo sobre madeiras demoraria alguns anos para acontecer e seria apenas parcial. Napione fará publicar postumamente no jornal O Patriota, no Rio de Janeiro, um artigo de Carlos Julião, que aparece no número de novembro-dezembro de 1814 sob o título “Observações feitas pelo coronel Carlos Julião sobre algumas madeiras do Brasil”. O artigo repete o formato do Diccionario, apresentando as características de 25 tipos de madeiras brasileiras. Em julho de 1802, o nome de Carlos Julião aparece numa lista de seis oficiais consultados sobre a pertinência da adoção de novos calibres para as peças de artilharia do exército português a serem usadas em campanha. Os demais nomes implicados nessa consulta são: o Marechal de Campo Quief de Ville, o Major Jean-Philippe de Tardy, o Marechal Conde de Vioménil, o Tenente General Leonardo Aleixo, Cavaleiro de Chalupe, além de Napione, denominado no documento como Charles Napion. O parecer que Julião apresenta nesta ocasião parece bastante sensato. O oficial defendia a manutenção dos calibres já utilizados, argumentando que o fato de serem menores, ao invés de representar uma desvantagem, na verdade fazia com que fossem de mais fácil condução, o que era conveniente tendo em vista a acidentada topografia do território português. Justifica também que o calibre utilizado pelos lusos era o mesmo da maioria das outras nações, inclusive da Inglaterra – “nossa aliada”, escreve ele – o que seria sempre um elemento facilitador no caso de um eventual pedido urgente de auxílio. A troca de calibre significaria, ao contrário, o descarte de todo o material de guerra já existente, o que, sem dúvida, causaria imensa despesa aos cofres do Estado português. Convém tentar identificar os demais pareceristas, todos de origem francesa. Jean-Philippe Tardy de la Brossy (1751-?) e Léonard-Alexis, conde de Chalup de Fareyron (1738-?) eram ambos oficiais do exército real da França que serviram na guerra de independência americana. Também o conde de Vioménil, Charles-Joseph-Hyacinthe du Houx (1734-1827), havia combatido nos Estados Unidos, e obtivera tal destaque em campanha que foi nomeado governador da Martinica em 1789. Com a instauração do Terror, passou a servir no exército organizado pelo príncipe Louis V Joseph de Bourbon-Condé (1736-1818), um dos vários exércitos de emigrados realistas franceses, que uniram forças com a Grã-Bretanha, a Rússia e a Áustria contra a França revolucionária. Como combatente emigrado, foi chamado a Portugal em 1801 pelo futuro conde de Linhares para ser um dos comandantes do exército luso. Convidar um oficial estrangeiro para o comando das forças militares portuguesas não era exatamente uma novidade. Mas a medida tomada por d. Rodrigo de Sousa Coutinho, assim como a preocupação com a artilharia de campanha expressa no pedido de pareceres a vários oficiais sugerem que Portugal vivia já em clima de guerra. De fato, desde 1796 aguardava-se a invasão do território. Naquele ano, o Tratado de Santo Ildefonso selara uma aliança ofensiva e defensiva entre a França e a Espanha, o que convinha imensamente à política expansionista e anti-britânica de Bonaparte, ademais intensificada depois do 18 Brumário. A declaração de guerra proferida pela Espanha contra a Inglaterra polarizou em definitivo a Península Ibérica e pressionou os portugueses a abandonarem a posição de neutralidade, mantida até ali com grande zelo. Diante da ameaça, Portugal, mais uma vez, recorre à Inglaterra para auxílio militar. A partir de 1797, George III envia forças auxiliares a Lisboa, que incluíam não apenas oficiais ingleses e irlandeses, mas também três regimentos de franceses emigrados a serviço da Grã-Bretanha (Cordeiro 1895). É justamente das providências relativas ao material necessário para reparação de armamentos e artilharia deste contingente estrangeiro que Julião se ocupa no Arsenal Real, conforme mencionado em seu Processo Individual citado anteriormente. Portugal seria efetivamente implicado no conflito em fevereiro de 1801. Em apenas dezoito dias, as forças militares espanholas tomaram todas as principais praças do Alto Alentejo, o que causou a queda do octogenário duque de Lafões e obrigou a coroa a pensar em novos nomes para o comando do exército luso. A guerra, afinal, teria curta duração, já que o tratado de paz seria assinado em Madri em setembro de 1801. Contudo, ela seria o preâmbulo da Guerra Peninsular, desencadeada quando da invasão francesa a Portugal em 1807. É desnecessário, e mesmo excessivo, retomar aqui as implicações dos acontecimentos deflagrados a partir de então, bastando lembrar do evento que mais consequências teria sobre a história de Portugal e suas colônias, bem como sobre a carreira de Carlos Julião: a transferência da família real e sua corte para o Brasil. Embarcado no cais de Belém naquele 27 de novembro de 1807 ia o brigadeiro Carlo Napione, que, como vimos, teria um importante papel a desempenhar no Rio de Janeiro. O brigadeiro deixava vago, portanto, o cargo de inspetor do Arsenal Real do Exército e das Fábricas de Pólvora de Barcarena e de Refino do Salitre de Alcântara. Por portaria datada do mesmo dia, emitida do Quartel da Junqueira, Julião era informado que o “Senhor General Marques de Vagos ordena que Vossa Senhoria fique fazendo as Vezes do Inspector do Arsenal Real do Exercito athe nova ordem do mesmo Senhor”. Vale lembrar que em abril de 1805, o oficial tinha recebido a patente de coronel de Artilharia. Entretanto, o coronel Julião não estava totalmente de acordo com o procedimento adotado para sua nomeação como substituto de Napione.Apenas alguns dias depois, em 1º de dezembro, o oficial dirige-se em carta a d. Miguel Pereira Forjaz (1769-1827) solicitando uma nomeação oficial para o posto de inspetor do Arsenal, sob o argumento de que “O Ex.mo General e Marques de Vagos mandou que o d.to Coronel Julião suprisse as Comissões do d.o Brigadeiro. Ha no dito Arsenal hua Junta autorizada com o Augusto Nome de S.A., (…) e esta apenas informada da mencionada vacatura, fez a nomeação do mesmo Coronel. Ambas estas nomeações ainda que authorizem no Arsenal o exercício das suas funções, com tudo como estas comissões são huma graça de S.A.R. que athe aqui se conferia por Decreto, e o não ser a dita nomeação feita por este Supremo Governo, por S.A.R. privativamente autorizado a conferir as graças poderia originar algum inconveniente na promptidão do Serviço, portanto o abaixo assignado Carlos Julião implora com o maior acatamento e respeito a Este Supremo Governo a nomeação do Cargo de Inspector das Fundições Officinas e Laboratorio do d.o Arsenal, e Director da Real Fabrica de Barcarena e Refino de Alcantara.” A nomeação oficial requerida, porém, nunca se tornaria realidade. É preciso considerar que este foi, acima de tudo, um período de quase desintegração para o exército português.As instruções expressas de Bonaparte após a entrada de Junot (1771-1813) em Lisboa eram para que o exército fosse imediatamente desarmado e os soldados reorganizados em colunas que marchariam para a França e seriam incorporados ao exército imperial com o nome de Legião Portuguesa.A situação só começou a se alterar após o armistício e a assinatura da Convenção de Sintra em agosto de 1808. A reinstauração do Conselho da Regência em setembro possibilitou o início das providências para a reconstituição do exército nos moldes em que existia antes da invasão. Certamente por isso, a correspondência de Julião enquanto inspetor do Arsenal, ao menos a que nos foi possível localizar, refere-se apenas aos meses de julho a setembro de 1808. Numa série de documentos, ele requer orientação de seus superiores sobre como comandar as atividades do Arsenal para “o tornar a por no seu antigo estado”, além de prestar contas da sua organização em tabelas como: “Relação dos Soldos que vencem os Officiaes actualmente empregados no Arsenal do Exército e dos Mezes que se lhes estão devendo”, “Mappa dos Mestres Officiaes, e mais pessoas empregadas nas Officinas do Arsenal Real do Exército, e da importancia total das mesmas Officinas”, “Mappa dos Officiaes d’Artilharia empregados no Arsenal Real do Exército”, “Resumo dos Mestres, Contra Mestres e Operarios, empregados nas Officinas das trez Repartições, ou Departamentos do Arsenal Real do Exército” e “Relacão dos Mestres, Contra Mestres, e Operarios, empregados nas Officinas das tres Repartições do Arsenal Real do Exército, com o rezumo das obras que tem feito, e estão entre mãos depois da Sahida dos Francezes”. Justamente ao final do mês de setembro, o tom da correspondência se altera. Em duas cartas endereçadas a Pereira Forjaz, Julião, assinando apenas “Coronel” e não mais “Coronel Inspetor”, pede expressamente a dispensa do “impraticável encargo de inspetor”. Os motivos alegados na primeira carta são a expedição de uma portaria ao mestre de uma oficina do Arsenal que contrariava uma ordem expressa sua, bem como a nomeação de artífices para as oficinas sem que lhe fosse feita nenhuma consulta, o que inevitavelmente provocaria entre seus subalternos “huma absoluta independencia, e insubordinação”. Na segunda carta, a questão da nomeação oficial requerida anteriormente volta à tona. Julião se sente insultado, já que “ha quem diga publicamente que eu ja não sou Inspector por terem acabado os seis mezes durante os quaes sómente podia servir pela nomeação da Real Junta da Fazenda”. Justifica-se, alegando que na portaria que o nomeara não havia nenhuma especificação quanto à validade do cargo, e que se, de fato, o prazo estava expirado, era obrigação da Junta nomeá-lo novamente, ou a outro oficial para substituí-lo. Faz, inclusive, acusações ao Deputado-Intendente, que “por espirito de monopolio pertende unir ao seu cargo o de Inspector, o que tem perfeitamente conseguido”. Conclui reafirmando sua correta conduta, já que “Não me considerando (…) nomeado pela Real Junta, mas sim pelo Ex.mo General das Armas (que pela authoridade do seu Posto poderia directamente receber Ordem de S.A.R. no momento da sua Partida) he que me julgo constituido Inspector até que o Supremo Tribunal da Regencia haja por bem dispensar-me, o que tenho implorado, e Supplico com tanto fervor.”. A dispensa lhe foi concedida, e Julião passa a desempenhar suas atividades de coronel no Quartel General de Santa Clara. Nos poucos documentos localizados relativos a este período, o oficial comunica, em certa ocasião, o afundamento de um barco carregado de material bélico defronte ao convento da Madre de Deus. Pouco depois, solicita que seja expedida ordem ao Arsenal para a confecção de camas para os inválidos que tinham sido transferidos de São Julião da Barra para o quartel de Santa Clara. A proximidade dos 70 anos, contudo, parece tornar as coisas mais difíceis para o nosso oficial. Ele solicita, por exemplo, a nomeação de um auxiliar para as “varias incumbencias mais do Qual General que comprir precizo de quem me ajude pois não tenho ninguem”, o que “na ocasião prezente me faz grande falta”. Queixa-se também do atraso no pagamento de sua remuneração, o que o prejudica no cumprimento das funções de comandante de artilharia de uma das brigadas de defesa de Lisboa, atividade para a qual tinha sido designado pelo marechal Beresford (1768-1854) e que “Obrigação ao Superintendente de assistir aos exercícios das diversas Batterias do ensino, e repetidas vezes à Casa do General da Província, e do Brigadeiro encarregado da defesa, não podendo ir a pé em razão da sua avançada idade, e faltando-lhe os meios para ir de outro modo.”. Em 26 de maio de 1811, Julião era reformado no posto de brigadeiro do exército. A carta patente, assinada pelo príncipe regente d. João no Rio de Janeiro, seria confirmada apenas em 19 de janeiro de 1813. Para Julião, contudo, seria um tanto tarde. Pouco mais de um ano antes, Manuel Ribeiro de Araújo, ex-diretor do Arsenal do Porto e seu sucessor no cargo de inspetor do Arsenal Real, enviava um comunicado a Pereira Forjaz, datado de Lisboa, 19 de novembro de 1811. “Neste documento, Araújo participava o falecimento na noite anterior do coronel de artilharia Carlos Julião, oficial que tinha “sempre desveladamente empregado os Seus talentos como é bem constante; ajuntando a esta qualidade a de ser um honrado e fiel vassalo de S.A.R.; por cujas razões a sua perda se faz sensível.”
Perguntas Frequentes sobre Carlos Julião
Quem foi Carlos Julião?
Carlos Julião foi um engenheiro militar e desenhista de origem italiana, nascido em Turim por volta de 1740, que serviu à coroa portuguesa a partir de 1763. É considerado um dos mais importantes registradores visuais do Império Português no século XVIII, autor de dezenas de desenhos e aquarelas sobre o Brasil, a Índia, Goa e outras colônias portuguesas.
Carlos Julião morou no Brasil?
Não. Apesar de sua obra ser hoje uma das principais fontes iconográficas sobre o Brasil colonial, Julião nunca chegou a residir ou se estabelecer no país. Sua passagem pelo Brasil ocorreu principalmente durante a viagem de retorno da Índia a Portugal, além de incumbências pontuais a serviço da administração militar portuguesa.
Qual é a obra mais conhecida de Carlos Julião sobre o Brasil?
É o álbum de aquarelas conhecido como “Riscos Illuminados de Figurinhos de Brancos e Negros dos Uzos do Rio de Janeiro e Serro do Frio”, com cerca de 43 imagens que retratam tipos sociais, vestimentas, trabalho escravizado e cenas do cotidiano no Rio de Janeiro e na região mineradora do Serro Frio.
Onde estão preservadas as obras de Carlos Julião?
Parte do acervo está em Portugal, no Gabinete de Estudos Arqueológicos de Engenharia Militar (GEAEM) e na Biblioteca Nacional de Portugal, em Lisboa. No Brasil, obras atribuídas a Julião integram acervos como o do Instituto Ricardo Brennand, em Recife, e da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, que publicou uma edição fac-similar do álbum em 1960.
Onde e quando morreu Carlos Julião?
Segundo a documentação de época citada neste artigo, Carlos Julião faleceu em Lisboa na noite de 18 de novembro de 1811, enquanto comandava uma das brigadas de artilharia de defesa da cidade sob o marechal Beresford — poucos meses depois de ter sido reformado no posto de brigadeiro pelo príncipe regente d. João, então no Rio de Janeiro. Algumas fontes de referência mais gerais indicam o Rio de Janeiro como local de falecimento; optamos aqui pela versão apoiada no documento de época citado no texto.
Carlos Julião era um artista profissional?
Não no sentido moderno do termo. Julião era oficial do Exército português, com formação técnica em engenharia militar; o desenho fazia parte das competências exigidas de engenheiros e cartógrafos da época. Sua produção artística nasceu, em grande parte, dessa formação técnica aplicada ao registro de paisagens, fortificações e tipos humanos das colônias.
Por que a obra de Carlos Julião é importante para a história do Brasil?
Porque oferece um dos raros registros visuais diretos da sociedade colonial brasileira do século XVIII — incluindo cenas de escravidão, comércio, vestimenta e vida urbana no Rio de Janeiro e em Salvador — em uma época na qual esse tipo de documentação iconográfica detalhada era escasso.
Saiba Mais: Fontes e Acervos sobre Carlos Julião
- Riscos Illuminados de Figurinhos de Brancos e Negros dos Uzos do Rio de Janeiro e Serro do Frio — edição de 1960 com introdução histórica e catálogo descritivo de Lygia da Fonseca Fernandes da Cunha, disponível na Biblioteca Digital da Câmara dos Deputados.
- Instituto Ricardo Brennand, em Recife, que reúne parte do acervo pictórico atribuído a Carlos Julião no Brasil.
- Património Cultural, I.P., entidade portuguesa responsável pela tutela do patrimônio arqueológico e histórico citado neste artigo.
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