Artes Plásticas no Nordeste

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As artes plásticas no nordeste tiveram influências e informações externas e ajudam a construir uma arte genuinamente brasileira e local – um processo de apropriação e recriação que remonta à colônia.

Aos artistas europeus que acompanharam Maurício de Nassau durante a ocupação holandesa de Pernambuco (1630-54) devem-se as primeiras imagens da paisagem do Brasil e do Nordeste em particular.

Paisagem com plantação (O Engenho), por Frans Post (1668). Nesta imagem da segunda metade do século XVII observa-se o tripé constituído por engenho, casa grande e capela. Ao fundo, vêem-se casas dispersas na paisagem - moradias de escravos e de lavradores de cana radicados próximos aos engenhos. Nota-se também detalhes da vida de um engenho real, isto é, movido por roda d'água:: casa de moenda, casa de purgar e batimento dos pães de açúcar ao ar livre.
Paisagem com plantação (O Engenho), por Frans Post (1668)

Frans Post registrou os vastos horizontes nordestinos, seus engenhos e fortes; Albert Eckhout fixou animais, plantas e personagens típicos em telas de grandes dimensões; a fauna e a flora dos novos domínios holandeses foram desenhadas minuciosamente por Zacharias Waneger, escrivão e despenseiro de Nassau e artista amador.

Colecionador Ricardo Brennand - Obras de Arte

Se essas imagens inaugurais foram elaboradas por mãos holandesas e calvinistas, o conjunto da arte que brotou no Nordeste durante os primeiros séculos da colônia é filho de Portugal e é católico, criado por religiosos das ordens que apartaram em território nordestino ou por leigos contratados para decorar as igrejas das vilas e dos engenhos.

Agostinho da Piedade
Agostinho da Piedade

Eram frades beneditinos Agostinho da Piedade (1580-1661), o primeiro escultor sacro da Bahia, e seu discípulo, Agostinho de Jesus (1600-61).

Jesuítas e franciscanos também se inscrevem na galeria de escultores seiscentistas, que cresceu à medida que a sociedade do açúcar enriquecia, fazendo erguer novos templos ou ampliando e reformando os primitivos.

Com o tempo, o oficio de moldar, talhar e pintar as glórias de Deus foi transmitido para artífices já nascidos na colônia, às vezes mestiços.

Era mulato o pernambucano João de Deus Sepúlveda, que viveu na segunda metade do século XVIII e pintou, entre outros, o teta da igreja de São Pedro dos Clérigos, em Recife.

Cabra, Francisco Xavier Chagas
Cabra, Francisco Xavier Chagas

Quer seja oficio de portugueses ou brasileiros, de brancos ou negros, a arte barroca nordestina desenvolveu-se no litoral, transpondo e adaptando para a colônia a linguagem da metrópole: a falta do mármore usado nas esculturas européias, por exemplo, foi compensada pelo desenvolvimento na técnica do entalhe da madeira, que atingiu o patamar da excelência com Francisco das Chagas, conhecido como o Cabra, e posteriormente com Manuel Inácio da Costa, ambos de Salvador.

Do primeiro pouco se sabe, salvo que era mulato e que, em 1758, esculpiu o magnífico Cristo Morto com gotas de sangue de rubi para a Ordem Terceira do Carmo.

Do segundo, que viveu entre 1763 e 1857, conhece-se mais: considerado o maior escultor da época, deixou um amplo legado, em que sobressai a imagem de São Pedro de Alcântara da igreja de São Francisco.

Evolução e História das Artes Plásticas no Nordeste

ESCOLA BAIANA DE PINTURA

Entre meados do século XVIII e do XIX estendeu-se no Nordeste a influência da Escola Baiana de Pintura.

José Joaquim da Rocha
José Joaquim da Rocha

Seu maior expoente, José Joaquim da Rocha (1737-1807), era brasileiro, mas aprendeu o oficio em Lisboa antes de voltar a Salvador, onde se tornou o mais requisitado mestre-pintor de seu tempo.

Entre as suas obras que resistiram ao tempo sobressai o forro da nave da igreja da Conceição da Glória.

Rocha formou inúmeros discípulos, entre eles José Teófilo de Jesus (1758-1847), que como o mestre, estudou na Europa e trabalhou na ornamentação de igrejas, mas exerceu igualmente a função de retratista.

Também da Escola Baiana, Antônio Franco Velasco (1780-1833) pintou o forro da nave na igreja do Bonfim, entre outros, mas tornou-se conhecido nacionalmente pelos retratos.

ACADEMICISMO

No século XIX a pintura divorciou-se da arquitetura e das demandas da religiosidade.

Implantava-se no Nordeste uma ordem acadêmica que, mantendo a vocação manifestada desde os primeiros tempos da colônia, se espelhava na Europa – destino de quase todos os artistas nordestinos do período, alguns precedidos por passagens pela Academia de Belas-Artes do Rio de Janeiro.

Grito do Ipiranga, Pedro Américo
Grito do Ipiranga, Pedro Américo

Esse trânsito, porém, não significou uma rejeição ao Brasil, mas uma busca de novos instrumentos para retratá-lo e construí-lo.

Assim, coube ao paraibano Pedro Américo (1843-1905) a façanha de pintar o que se tornaria o retrato oficial da proclamação da Independência, uma imagem incorporada ao inconsciente brasileiro – o quadro Independência ou morte, atualmente no Museu Paulista (Museu do Ipiranga) de São Paulo.

Em O último tamoio, Rodolfo Amoedo (1857 -1941), baiano, ajudou a construir a imagem do índio, emblema da nação que formava. O pernambucano Telles Júnior (1851-1914) usou a linguagem aprendida na Europa para retratar o Nordeste.

Iracema, Rodolfo Amoedo
Iracema, Rodolfo Amoedo

Outros artistas nordestinos de importância no período são o pernambucano Arsênio Silva (1833-83), que introduziu o uso do guache no país, e o alagoano Rosalvo Ribeiro (1867-1915), especializado em cenas militares.

Essa adaptação de linguagens, estilos e técnicas européias à realidade brasileira manteve-se quando, a partir da segunda década do século XX, artistas nordestinos incorporaram-se ao movimento modernista.

São exemplos dela a trajetória de dois dos maiores pintores brasileiros do período, ambos pernambucanos. Vicente do Rego Monteiro (1899-1970) apurou em Paris uma linguagem marcada pela cerâmica indígena; Cícero Dias (1907 -2003), que no fim dos anos 1920 criava aquarelas de inspiração surrealista a partir das cores e temas de sua Recife natal, passou grande parte da vida na Europa sem desvincular-se do universo nordestino.

É curioso lembrar que o Nordeste não apenas “exportou”, mas também recebeu artistas que se encantaram com suas paisagens.

O pintor ítalo-paulista José Pancetti (1902-58) estabeleceu-se na década de 1950 em Salvador, onde produziu algumas de suas melhores marinhas; fixou-se ali à mesma época o argentino Carybé (1911-97), pintor e desenhista que registrou com traço inconfundível elementos da cultura baiana.

NOVOS RUMOS

Entre os anos 1940 e 1950, as artes plásticas nordestinas passaram por uma fase de efervescência e renovação. Em Salvador, participaram desse movimento o próprio Carybé, Genaro de Carvalho (1922-71), conhecido por suas tapeçarias, e o pintor sergipano Jenner Augusto (1923), além do escultor Mário Cravo (1923).

Flagelados, Jenner Augusto
Flagelados, Jenner Augusto

No Ceará, criou-se em 1943 a Sociedade Cearense de Artes Plásticas, da qual saíram nomes como Aldenur Martins (1922) , Sérvulo Esmeralda (1929), Raimundo Cela (1890-1954) eAntôtuo Bandeira (1922-67), grande abstracionista brasileiro.

Em Pernambuco, formou-se em 1948 o Ateliê Coletivo da Sociedade de Arte Moderna do Recife, cujo maior expoente é Gilvan Sanuco (1928) , pintor e gravurista que retomou e renovou o universo do cordel nordestino. Participou desse ateliê também João Câmara Filho (1944), paraibano que mais tarde representou cenas do país sob a ditadura militar com cores densas e sombrias.

O intercâmbio entre influências externas e referências locais continuou e perdura até hoje.

Ele é visível no construtivismo do soteropolitano Rubem Valentim (1926-91), que usou símbolos do candomblé, e nas esculturas de Francisco Bremund (1927), que em seu ateliê-olaria em Recife trabalha técnicas herdadas da tradição européia de cerâmica.

Nascido na Polônia, o escultor Frans Krajcberg (1921) vive no sul da Bahia e usa raízes, troncos e cipós calcinados em esculturas gue aliam pesquisa artística e militância ecológica.

Cearense, Leonilson desenvolveu em São Paulo (1957-93) uma obra vasta que inclui desenhos, pinturas e bordados.

Uma lista de artistas nordestinos ou vinculados à cultura do Nordeste brasileiro passaria ainda pelas gravuras de Guita Charifker (1936), pelas fotografias de Pierre Verger (1902- 96), de Mário Cravo Neto (1947) e Christian Cravo (1974), pelas esculturas de raízes africanas de Agnaldo dos Santos (1926-62) e de Emanoel Araújo (1940), pela obra de Antonio Dias (1944), e se estenderia por muitos nomes, alcançando Gil Vicente (1958) e Sebastião Pedrosa, de Recife, e o baiano Marepe (1970), gue expõe instalações e pinturas nas galerias de São Paulo e Rio de Janeiro. A arte do Nordeste olha para além de suas fronteiras.

Artes Plásticas no Nordeste

Willy Sievert

Escrito por Willy Sievert

Editor do Bahia.ws desde sua fundação em 2009. Morador de Salvador, viaja com frequência pelo Nordeste e por todo o Brasil para manter os guias atualizados. Conheça mais sobre Willy Sievert →

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