Candombá na Chapada Diamantina, Bahia: a Flor do Fogo

Candombá (Vellozia sincorana) é uma flor típica e endêmica dos Campos Rupestres do Parque Nacional da Chapada Diamantina, na Bahia. A planta só floresce em massa depois de queimadas, e por isso suas flores são um espetáculo raro na Chapada Diamantina. O Candombá, que não desabrochava há 17 anos, renasceu em uma área queimada em 2015, transformando a paisagem. O registro foi divulgado em março de 2016, e o vídeo está mais abaixo.

Candombá ou Vellozia sincorana
Candombá ou Vellozia sincorana

O que é o candombá e onde ele vive

O candombá pertence à família Velloziaceae, a mesma das canelas-de-ema, plantas típicas dos campos rupestres. É uma planta de roseta, com caule aéreo e vários ramos, que cresce em altitudes entre cerca de 1.040 e 1.200 metros na Serra do Sincorá, na Chapada Diamantina. Estudos científicos a classificam como espécie ameaçada. Essa espécie possui várias características que a tornam única e endêmica:

  1. Endemismo: o Candombá ocorre exclusivamente nos campos rupestres da Chapada Diamantina, o que significa que não é encontrado em nenhum outro lugar do mundo.
  2. Dependência do fogo: a espécie depende do fogo para florescer. Em um estudo científico, a floração e a frutificação começaram cerca de 40 dias após a queimada, e o botânico ouvido pela reportagem fala em cerca de 30 dias.
  3. Adaptações ao fogo: raízes adventícias crescem para baixo entre as bases secas das folhas, absorvem a umidade da névoa e da chuva e ajudam a proteger o caule das chamas. As rosetas rebrotam cerca de 15 dias depois do incêndio.
  4. Floração irregular: o Candombá não floresce em um calendário fixo. Os 17 anos desta reportagem correspondem ao intervalo entre dois incêndios naquela área, e não a um ciclo da planta.
  5. Néctar abundante: segundo o botânico, a quantidade de néctar das flores é grande, o que atrai polinizadores. Estudos com outras espécies de Vellozia, feitos na Serra do Cipó (MG), mostram que beija-flores e abelhas impulsionam a reprodução dessas plantas.
  6. Importância ecológica: além do valor estético, o Candombá ajuda a manter a biodiversidade dos campos rupestres e oferece alimento a polinizadores.
  7. Espécie ameaçada: seus ramos são resinosos e inflamáveis, e a planta é coletada por moradores como combustível. Queimadas ilegais e muito frequentes também colocam a espécie em risco.
Candombá ou Vellozia sincorana
Candombá ou Vellozia sincorana

Candombá volta a florescer na Serra da Larguinha

O Candombá voltou a florescer sobre tocos de árvores queimadas em uma área devastada por um incêndio na Serra da Larguinha, entre os municípios de Palmeiras e Lençóis.

Imagens do vale de flores da espécie Candombá, que se formou no local, foram capturadas pelo fotógrafo Rui Rezende, que fazia uma trilha através do Vale do Capão para chegar à Cachoeira da Fumaça, a segunda cachoeira mais alta do Brasil, com cerca de 340 metros de queda, quando se deparou com essa cena rara. “Foi uma grata surpresa. Estávamos indo em direção à Cachoeira da Fumaça por baixo. Durante a trilha, me deparei com aquela cena na subida. Em uma fotografia de natureza, sempre nos deparamos com cenas impressionantes. E dessa vez não foi diferente”, destacou.

Candombá na Chapada Diamantina
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Candombá na Chapada Diamantina

De acordo com o botânico Abel Augusto Conceição, da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), as flores da espécie Candombá dependem do fogo para florescer.

Nos três últimos meses de 2015, incêndios devastaram 51 mil hectares na Chapada Diamantina, segundo a Secretaria de Meio Ambiente da Bahia. Do total, 15 mil hectares atingidos pelas chamas estão dentro do Parque Nacional, que tem cerca de 152 mil hectares, foi criado em 1985 e abrange seis municípios: Andaraí, Ibicoara, Itaetê, Lençóis, Mucugê e Palmeiras.

Os focos de incêndio só se extinguiram completamente após as chuvas em janeiro de 2016. “Essa florada exuberante e maravilhosa é uma cena extremamente rara.

Essa população de Candombá floresceu há 17 anos e somente agora voltou a florir. Ela depende do fogo e só floresce com a presença do fogo. Portanto, se não houver incêndio, não haverá flores. […] No caso do Candombá, ela floresce após 30 dias do fogo.

Além disso, a quantidade de néctar é fabulosa”, destaca o especialista. Ao longo da carreira, o fotógrafo relata que já registrou várias vezes a Chapada Diamantina, incluindo durante as queimadas provocadas pela ação humana no ano anterior. “As árvores queimam completamente. Fica o toco preto, e qualquer pessoa que olhe terá certeza absoluta de que aquela planta está morta. É uma cena fantástica. É coisa da natureza. O homem vem com o fogo, e a natureza responde com flores”, comenta.

O que a ciência diz sobre o candombá e o fogo

Um estudo publicado na Acta Botanica Brasilica acompanhou, entre 2008 e 2010, populações de Vellozia aff. sincorana na Serra do Sincorá, no município de Palmeiras.

Depois de uma queimada em 8 de novembro de 2008, as rosetas rebrotaram em cerca de 15 dias, e 24 dos 25 indivíduos acompanhados (96%) floresceram e frutificaram cerca de 40 dias após o fogo. Em uma população sem queima desde 1999, nenhuma planta floresceu.

Os autores também observaram que, em 1999 e em 2008, a floração em massa ocorreu apenas em áreas queimadas. Eles consideram o fogo o principal gatilho da floração, embora temperatura, duração do dia e chuva também possam contribuir, e alertam que queimadas ilegais e descontroladas podem aumentar a frequência do fogo, causar mortalidade e ameaçar a espécie.

Fogo e conservação na Chapada Diamantina

O fogo faz parte da dinâmica dos campos rupestres, mas as queimadas provocadas por pessoas são um problema para a flora e para o turismo. Em 2015, o chefe interino do parque disse à Agência Brasil que a causa dos incêndios era humana.

Os incêndios continuam sendo um desafio: em janeiro de 2024, um incêndio atingiu cerca de 2 mil hectares no Vale do Capão, em Palmeiras, e foi controlado com a ajuda da chuva. Para conhecer a vegetação e a fauna da região, veja também o guia sobre relevo, fauna e flora da Chapada Diamantina, a sempre-viva, as orquídeas e as aves da Chapada Diamantina.

Onde ver o candombá na Chapada Diamantina

A planta cresce nos campos rupestres do alto da serra, em áreas que também são roteiros de trilhas.

O estudo citado acompanhou populações em dois pontos da Serra do Sincorá, em Palmeiras, um deles perto da Cachoeira da Fumaça.

A floração em massa depende de incêndios, então não dá para prever quando ela acontece, mas a planta pode ser vista durante as caminhadas. Para organizar o roteiro, veja os guias de trekking na Chapada Diamantina, das principais cidades e vilas da região e do guia completo da Chapada Diamantina. Durante as trilhas, contrate guia local, não saia dos caminhos, não colete plantas e nunca use fogo. Queimadas provocadas são crime ambiental.

Perguntas Frequentes

O que é o candombá?

O candombá (Vellozia sincorana) é uma planta típica dos campos rupestres da Chapada Diamantina, na Bahia. Pertence à família Velloziaceae, a mesma das canelas-de-ema, e floresce em massa depois de queimadas.

Onde o candombá é encontrado?

Ele é endêmico da Chapada Diamantina, ou seja, ocorre apenas nos campos rupestres da região, na Serra do Sincorá. As populações estudadas ficam no município de Palmeiras, em altitudes entre 1.040 e 1.200 metros.

Por que o candombá só floresce depois do fogo?

Segundo pesquisas, o fogo é o principal gatilho da floração e da frutificação da espécie, embora temperatura, duração do dia e chuva também possam contribuir. Em um estudo, as plantas floresceram cerca de 40 dias depois da queimada. O botânico ouvido pela reportagem fala em cerca de 30 dias.

O candombá floresce a cada 17 anos?

Não. O número 17 vem da reportagem de 2016, que registrou a floração em uma área onde a planta não florescia havia 17 anos, o tempo desde o incêndio anterior no local. A floração depende de queimadas, e não de um ciclo fixo.

Como o candombá sobrevive ao fogo?

Raízes adventícias crescem para baixo entre as bases secas das folhas e ajudam a proteger o caule do calor. Depois do incêndio, as rosetas rebrotam em cerca de 15 dias. No estudo citado, todos os 25 indivíduos queimados sobreviveram.

O candombá é uma espécie ameaçada?

Estudos científicos classificam a espécie como ameaçada. Os ramos são resinosos e inflamáveis, e a planta é coletada por moradores como combustível. Queimadas ilegais e frequentes também aumentam o risco para as populações.

Dá para ver o candombá em flor ao visitar a Chapada Diamantina?

A planta pode ser vista nas trilhas pelos campos rupestres, mas a floração em massa só acontece depois de incêndios e não tem data prevista. Faça os passeios com guia, fique nos caminhos e não colete nem queime plantas. Veja o guia de trekking.

Qual é a relação do candombá com o Parque Nacional da Chapada Diamantina?

O candombá ocorre em campos rupestres do parque, uma unidade de conservação com cerca de 152 mil hectares, criada em 1985, que abrange os municípios de Andaraí, Ibicoara, Itaetê, Lençóis, Mucugê e Palmeiras. Leia o guia completo da Chapada Diamantina.

Guia Turístico da Chapada Diamantina Fonte da reportagem original: Acorda Cidade, 14/03/2016.

Willy Sievert

Escrito por Willy Sievert

Editor do Bahia.ws desde sua fundação em 2009. Morador de Salvador, viaja com frequência pelo Nordeste e por todo o Brasil para manter os guias atualizados. Conheça mais sobre Willy Sievert →

Publicado em 17/05/2016 · Atualizado em 15/10/2026

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