Interesse europeu e conflitos pelo pau‑brasil nos séculos XVI e XVII
Este capítulo examina a exploração e o comércio do pau‑brasil ao longo da costa brasileira nos primeiros séculos da colonização, destacando as práticas comerciais portuguesas, a intensa presença de armadores franceses e as medidas de repressão tomadas por Portugal.
Aborda a instalação de feitorias, as relações com os povos indígenas, o contrabando francês e as armadas de guarda‑costa organizadas para proteger o monopólio lusitano, bem como a resposta diplomática e militar da Coroa portuguesa.

1. Frequência com que os portugueses visitavam o litoral brasileiro
Tráfico do pau‑brasil e presença europeia no litoral brasileiro
Conforme mencionado, em 1502 foi arrendada a alguns mercadores de Lisboa — entre eles o cristão‑novo Fernão de Noronha — a exploração do pau‑brasil nos domínios portugueses na América.
Esses arrematantes comprometeram‑se a enviar anualmente frotas de seis navios para explorar até trezentas léguas de costa da nova terra, construir feitorias fortificadas nas regiões adequadas e conservá‑las por três anos.
Parece que esse regime foi observado pelos navios da segunda expedição exploradora, que carregaram madeira em Cabo Frio, segundo a narrativa atribuída a Américo Vespúcio.
Vários documentos demonstram a continuidade desse tráfico do Brasil para o Reino nos anos seguintes.
Estabeleceram‑se feitorias litorâneas, inclusive no Rio de Janeiro e em Pernambuco, e talvez em Santa Cruz (Porto Seguro) e na Ilha de Santo Aleixo, além da de Cabo Frio.
Essas feitorias facilitaram o comércio com os indígenas e deram início ao escasso povoamento da extensa costa.
Temos notícia de navios que se dedicavam isoladamente a esse comércio, como a nau Bretoa, que em 1511 veio carregar madeira em Cabo Frio, levando também alguns indígenas escravizados, aves e pequenos animais.
Além desses navios de comércio, desde o primeiro decênio do século XVI começaram a frequentar o litoral brasileiro diversas frotas portuguesas destinadas ao Oriente.

2. Pelos franceses
Conhecida na Europa a existência, na terra de Santa Cruz, de madeira útil à indústria de tintas da época, navios de armadores franceses começaram a frequentar o litoral, entregando‑se ao comércio clandestino com os indígenas.
Já em 1504 esteve aqui Binot Paulmier de Gonneville, na Ilha de São Francisco, e em outros dois pontos entre esta e a Bahia.
Outras referências confirmam vindas de entrepostos procedentes de Dieppe, Honfleur, Saint‑Malo, Rouen e outros portos franceses, inclusive à Bahia e a Pernambuco.
Tão numerosas foram as viagens dos franceses ao Brasil que os indígenas logo aprenderam a distingui‑los dos portugueses, chamando‑os mair — isto é, “os transformadores” — e aos portugueses peró, isto é, “tubarões” ou “os que vêm pelo mar”.
Aos franceses também chamavam ayurujuba, “papagaio amarelo”, por serem geralmente loiros, ruivos ou faladores.
Contra essa frequência reclamou Dom Manuel I junto aos governos de Luís XII e Francisco I.
O mesmo fez seu sucessor, Dom João III, também sem resultado.
Os soberanos franceses não reconheciam o monopólio comercial que os portugueses, segundo as ideias da época, julgavam pertencer somente à sua Coroa, nem estavam dispostos a abandonar um comércio lucrativo.

3. As armadas portuguesas de guarda‑costa
Verificando a inutilidade das reclamações dirigidas à França, os reis portugueses resolveram agir com energia, organizando armadas ditas de guarda‑costa para combater os contrabandistas no Brasil e impedir a continuação do tráfico ilícito.
Destacou‑se no comando Cristóvão Jaques, que esteve aqui entre 1516 e 1519 e de 1526 a 1528, navegando entre Pernambuco e o Rio da Prata, combatendo, vencendo e aprisionando numerosos entrepostos franceses.
Entre essas viagens, é possível que ao menos outra expedição portuguesa de guarda‑costa tenha vindo ao Brasil, entre 1521 e 1528.
Apesar da repressão enérgica, os franceses continuaram a contrabandear no litoral, o que suscitou novas providências diplomáticas e militares de Dom João III — as mencionadas no capítulo relativo ao Ciclo do pau‑brasil — e medidas confiadas à importante expedição de Martim Afonso de Sousa, também tratada em unidade especial.

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