Entre o início do século XVI e meados da mesma centúria, a costa brasileira foi palco de frequentes passagens e incursões de navegadores espanhóis — quer em rotas para as Antilhas e a Venezuela, quer na busca de uma passagem para o Pacífico e as Molucas.
As Molucas (atualmente arquipélago das Maluku, na Indonésia) são um grupo de ilhas no leste da Indonésia.
Historicamente ficaram conhecidas como as “Ilhas das Especiarias” (Spice Islands) porque eram a principal origem de especiarias muito valorizadas na Europa — especialmente cravo‑da‑índia, noz‑moscada e macis.

Essas presenças na costa brasileira, ora apenas de reconhecimento costeiro, ora associadas a incidentes, naufrágios e contrabando, influenciaram a cartografia, as reivindicações territoriais e as rotas comerciais da região, contribuindo para a posterior expansão espanhola na bacia platina, apesar da precedência portuguesa no descobrimento.

1. Antecedentes e primeiras passagens
Presença espanhola e navegações no litoral brasileiro no século XVI
Após a passagem de Vicente Yánez Pinzón e Diogo de Lepe pela costa do Nordeste e Norte do Brasil — anterior ao “descobrimento” português por Pedro Álvares Cabral — outras frotas espanholas, a caminho da Venezuela e das Antilhas, também navegaram ao largo dessa mesma região, sem consequências maiores além do reconhecimento da existência do Mar Dulce, isto é, da foz do Amazonas.

2. Ventos, correntes e incidentes de 1518
Como o regime de ventos e correntes, em parte do ano, na costa brasileira do Nordeste e Norte — então chamada Leste-Oeste — levava os navios com maior facilidade às Antilhas, ocorreu, em 1518, o aprisionamento por espanhóis, nas Antilhas, de uma embarcação portuguesa comandada por Rodrigo Álvares.
Em carta a Dom Manuel I, um de seus tripulantes, Estêvão Fróis, alegou a prioridade da navegação portuguesa no litoral que vai do Rio Grande do Norte ao Maranhão e além.
Mencionou viagens anteriores àquela região, “há vinte anos e mais”, de certo João Coelho, da Porta da Cruz, em Lisboa, e a presença ali de um Diogo Ribeiro, um oficial de armas e mensageiro da coroa, morto pelos indígenas.
Confirmando isso, um mapa de 1519, de Lopo Homem, colocou a bandeira portuguesa defronte da grande embocadura amazônica, registrando inúmeros topônimos costeiros.

3. Explorações na costa sul do Brasil
Da mesma forma, na costa Sul, por volta de 1514, tendo como piloto João de Lisboa, dois navios portugueses, armados por Dom Nuno Manuel e Cristóvão de Haro — mencionados na Nova Gazeta da Terra do Brasil, uma informação manuscrita depois publicada na Alemanha — teriam chegado, pela primeira vez ou novamente, ao Cabo de Santa Maria e ao Rio da Prata.

4. Busca pela rota para as Molucas e Solís em 1516
Com a descoberta do Oceano Pacífico, então chamado Mar do Sul, no atual Panamá, surgiu a ideia de que as ricas Ilhas Molucas poderiam ser alcançadas por uma passagem marítima sul-americana.
Tentou encontrá‑la, em 1516, o navegador João Díaz de Solís, a serviço da Espanha, redescobrindo então, oficialmente, o Rio da Prata; foi, porém, morto pelos indígenas da margem esquerda.
Alguns de seus companheiros, bem como outros navegantes espanhóis naufragados ou chegados à costa leste do Brasil, entregaram‑se várias vezes ao tráfico ilícito do pau‑brasil.

5. Fernão de Magalhães e a passagem em 1520
Insistindo no projeto de Solís, realizou‑o o português Fernão de Magalhães, também a serviço da Espanha, ao descobrir, em 1520, o estreito que hoje leva seu nome, entre os oceanos Atlântico e Pacífico, e ao comandar grande parte da primeira viagem de circum‑navegação.


6. Consequências e presença espanhola na região platina
Em consequência, os espanhóis continuaram a frequentar a rota que passava ao longo daquele litoral brasileiro, com escalas em alguns portos, embora se dirigissem principalmente à exploração dos rios da Prata, Paraná e Uruguai no decênio seguinte, como fizeram Sebastião Caboto e Diogo García.
Disto resultou, e da primeira fundação de Buenos Aires em 1536, a posse espanhola daquela região platina, apesar da precedência portuguesa no seu descobrimento.

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