Presença espanhola e navegações no litoral brasileiro no século XVI

Entre o início do século XVI e meados da mesma centúria, a costa brasileira foi palco de frequentes passagens e incursões de navegadores espanhóis — quer em rotas para as Antilhas e a Venezuela, quer na busca de uma passagem para o Pacífico e as Molucas.

As Molucas (atualmente arquipélago das Maluku, na Indonésia) são um grupo de ilhas no leste da Indonésia.

Historicamente ficaram conhecidas como as “Ilhas das Especiarias” (Spice Islands) porque eram a principal origem de especiarias muito valorizadas na Europa — especialmente cravo‑da‑índia, noz‑moscada e macis.

Map of the Western Hemisphere from 1623 - This scarce and important map of the Americas and the Pacific Ocean is based on the manuscript charts of Juan Lopez de Velasco. It depicts the Papal line of demarcation between the Portuguese and Spanish spheres of influence. Being Spanish in origin, the map places the Philippines and Moluccas some 40 degrees too far east. There are both Latin and German script notations in the South Pacific. Johann Theodore de Bry continued his father's Grands Voyages with his publication of the twelfth part, which was an edition of Antonio de Herrera y Tordesillas' collection of voyages. "Descripcion de las Indias Ocidentalis", Bry, Johann Theodore de
Mapa do Hemisfério Ocidental de 1623 – Este raro e importante mapa das Américas e do Oceano Pacífico baseia-se nos mapas manuscritos de Juan Lopez de Velasco. Ele retrata a linha papal de demarcação entre as esferas de influência portuguesa e espanhola. Sendo de origem espanhola, o mapa coloca as Filipinas e as Molucas cerca de 40 graus a leste demais.

Essas presenças na costa brasileira, ora apenas de reconhecimento costeiro, ora associadas a incidentes, naufrágios e contrabando, influenciaram a cartografia, as reivindicações territoriais e as rotas comerciais da região, contribuindo para a posterior expansão espanhola na bacia platina, apesar da precedência portuguesa no descobrimento.

Presença espanhola e navegações no litoral brasileiro no século XVI
Presença espanhola e navegações no litoral brasileiro no século XVI

1. Antecedentes e primeiras passagens

Presença espanhola e navegações no litoral brasileiro no século XVI
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Presença espanhola e navegações no litoral brasileiro no século XVI

Após a passagem de Vicente Yánez Pinzón e Diogo de Lepe pela costa do Nordeste e Norte do Brasil — anterior ao “descobrimento” português por Pedro Álvares Cabral — outras frotas espanholas, a caminho da Venezuela e das Antilhas, também navegaram ao largo dessa mesma região, sem consequências maiores além do reconhecimento da existência do Mar Dulce, isto é, da foz do Amazonas.

Antecedentes e primeiras passagens
Antecedentes e primeiras passagens

2. Ventos, correntes e incidentes de 1518

Como o regime de ventos e correntes, em parte do ano, na costa brasileira do Nordeste e Norte — então chamada Leste-Oeste — levava os navios com maior facilidade às Antilhas, ocorreu, em 1518, o aprisionamento por espanhóis, nas Antilhas, de uma embarcação portuguesa comandada por Rodrigo Álvares.

Em carta a Dom Manuel I, um de seus tripulantes, Estêvão Fróis, alegou a prioridade da navegação portuguesa no litoral que vai do Rio Grande do Norte ao Maranhão e além.

Mencionou viagens anteriores àquela região, “há vinte anos e mais”, de certo João Coelho, da Porta da Cruz, em Lisboa, e a presença ali de um Diogo Ribeiro, um oficial de armas e mensageiro da coroa, morto pelos indígenas.

Confirmando isso, um mapa de 1519, de Lopo Homem, colocou a bandeira portuguesa defronte da grande embocadura amazônica, registrando inúmeros topônimos costeiros.

Ventos, correntes e incidentes de 1518
Ventos, correntes e incidentes de 1518

3. Explorações na costa sul do Brasil

Da mesma forma, na costa Sul, por volta de 1514, tendo como piloto João de Lisboa, dois navios portugueses, armados por Dom Nuno Manuel e Cristóvão de Haro — mencionados na Nova Gazeta da Terra do Brasil, uma informação manuscrita depois publicada na Alemanha — teriam chegado, pela primeira vez ou novamente, ao Cabo de Santa Maria e ao Rio da Prata.

Explorações na costa sul do Brasil
Explorações na costa sul do Brasil

4. Busca pela rota para as Molucas e Solís em 1516

Com a descoberta do Oceano Pacífico, então chamado Mar do Sul, no atual Panamá, surgiu a ideia de que as ricas Ilhas Molucas poderiam ser alcançadas por uma passagem marítima sul-americana.

Tentou encontrá‑la, em 1516, o navegador João Díaz de Solís, a serviço da Espanha, redescobrindo então, oficialmente, o Rio da Prata; foi, porém, morto pelos indígenas da margem esquerda.

Alguns de seus companheiros, bem como outros navegantes espanhóis naufragados ou chegados à costa leste do Brasil, entregaram‑se várias vezes ao tráfico ilícito do pau‑brasil.

Busca pela rota para as Molucas e Solís em 1516
Busca pela rota para as Molucas e Solís em 1516

5. Fernão de Magalhães e a passagem em 1520

Insistindo no projeto de Solís, realizou‑o o português Fernão de Magalhães, também a serviço da Espanha, ao descobrir, em 1520, o estreito que hoje leva seu nome, entre os oceanos Atlântico e Pacífico, e ao comandar grande parte da primeira viagem de circum‑navegação.

Fernão de Magalhães e a passagem de 1520
Fernão de Magalhães e a passagem de 1520
Map of Strait of Magellan from 1694In 1670, John Narborough was the first Englishman to sail through the Strait of Magellan in both directions; thus demonstrating the falsity of the accepted wisdom that the wind and currents would prevent any eastward passage of the strait. He had been commissioned by James, Duke of York (later James II), to sail to South America to investigate potential trade possibilities. Narborough's expedition proved that a profitable trade with South America was possible, and this set the course of Britain's foreign policy for the next half century. Narborough first published his journal of the voyage in An Account of Several Late Voyages… in 1694, edited by Tancred Robinson and printed by Sam Smith and Benjamin Walford. The book included this map of the Strait of Magellan as well as a map of the region around the North Pole. Narborough's map provides a detailed view of the tortuous course of the strait with soundings and safe anchorages carefully noted. There are several notations along the coasts describing the countryside, and a lettered key at bottom right identifies numerous islands found within the strait. A large inset map shows Patagonia and Tierra del Fuego. The map is handsomely adorned with two large compass roses and a title cartouche held aloft by putti and supporting a dedication to Sam Pepys Esquire. Narborough's book was again republished in 1711, with the dedication cartouche on this map changed to Robert Earle of Oxford. Narborough's description of the Strait of Magellan provided the basis for British charts of the strait until the time of Captain Cook. Both the original Narborough map and the Thornton re-issues are extremely scarce. We have only found one record of the first state of Narborough's map being on the market in the past 25 years. First Edition of Narborough's Scarce Map of the Strait of Magellan "To the Honble. Sam: Pepys Esqr. This Mapp of the Streights of Magellan Drawn by Sr Ion. Narbrough...", Narbrough, John
Mapa do Estreito de Magalhães de 1694 – Em 1670, John Narborough foi o primeiro inglês a navegar pelo Estreito de Magalhães em ambas as direções, demonstrando assim a falsidade da crença popular de que o vento e as correntes impediriam qualquer passagem para o leste do estreito. Ele havia sido contratado por James, Duque de York (mais tarde James II), para navegar até a América do Sul a fim de investigar possíveis oportunidades comerciais. A expedição de Narborough provou que era possível um comércio lucrativo com a América do Sul, e isso definiu o rumo da política externa britânica para o meio século seguinte.

6. Consequências e presença espanhola na região platina

Em consequência, os espanhóis continuaram a frequentar a rota que passava ao longo daquele litoral brasileiro, com escalas em alguns portos, embora se dirigissem principalmente à exploração dos rios da Prata, Paraná e Uruguai no decênio seguinte, como fizeram Sebastião Caboto e Diogo García.

Disto resultou, e da primeira fundação de Buenos Aires em 1536, a posse espanhola daquela região platina, apesar da precedência portuguesa no seu descobrimento.

Consequências e presença espanhola na região platina
Consequências e presença espanhola na região platina

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