
História da Capela Dourada em Recife
Capela Dourada - A Joia Esquecida de Recife
1. Os primórdios do franciscanismo em Pernambuco
Na donataria de Pernambuco governava Jorge de Albuquerque Coelho (1578–1597), que, em 1585, recebeu a missão liderada por Frei Melchior de Santa Catharina.
O franciscano trouxe consigo outros seis religiosos para iniciar a catequização e a fundação de conventos. Os missionários capuchos fundaram o primeiro convento erguido nas terras brasileiras.
Nesse período, a vila fundada por Duarte Coelho Pereira em 1537, a “Olinda dos Marins”, já refletia a prosperidade do cultivo da cana‑de‑açúcar.
Maria Rosa, viúva de Pedro Leitão, doou aos frades uma capela dedicada a Nossa Senhora das Neves; sobre esse sítio foi erguido o convento de São Francisco, cuja construção começou em outubro de 1585.
2. A fundação do convento do Recife
Frei Santa Maria de Jaboatão relata que, em 28 de outubro de 1606, os frades reunidos em Olinda decidiram erguer um convento no “Arrecife dos Navios” (povoação ao sul da vila), para atender mareantes e pescadores.
Sétimo entre as fundações franciscanas na América e quarto dedicado a Santo Antônio, o convento do Recife foi erguido em terreno doado por Marcos André, na ponta da “ilha de Antônio Vaz”. Para Frei Jaboatão, o sítio era “alegre, vistoso, divertido e aprazível”.
A construção consolidou o Recife como entreposto comercial da elite olindense.
3. A ocupação holandesa e suas consequências
Antes da ocupação holandesa (1630–1654), Pernambuco era o principal centro açucareiro colonial.
Em 1606 havia cerca de cem engenhos em Pernambuco, segundo Frei Vicente do Salvador.
A ocupação holandesa transformou o Recife em Mauritsstad, capital do domínio nassoviano; Olinda foi incendiada em 1631 e vários conventos foram desativados ou profanados. Após a expulsão dos holandeses (1654) e as subsequentes disputas administrativas, Olinda voltou a ser capital (1657), mas estava economicamente fragilizada.
4. O crescimento econômico do Recife e o surgimento dos “mascates”
O Recife herdou da presença holandesa infraestrutura urbana e posição hegemônica como centro comercial.
Com a expulsão dos flamengos e da comunidade judaica, redes comerciais foram ocupadas por reinóis, sobretudo do norte de Portugal. No início do século XVIII estimava‑se cerca de 1.200 fogos e 15 mil habitantes.
Forasteiros de baixa condição social, através do “mascatear”, enriqueceram no comércio de grosso trato, tráfico de escravos e financiamento das safras de açúcar.
Esses mercadores almejavam prestígio, cargos e controle das atividades portuárias — pretensões barradas pela “nobreza da terra” de Olinda, que monopolizava a câmara municipal.
5. Confrarias religiosas e legitimação social
Buscando legitimação social, os mercadores recifenses formaram confrarias e ordens leigas ricas que também funcionavam como fontes de crédito.
Ao fim do século XVII, as principais irmandades do Recife eram a Irmandade do Santíssimo Sacramento da Matriz do Corpo Santo, a Ordem Terceira do Carmo e a Ordem Terceira de São Francisco, compostas majoritariamente por “homens de negócio”.
A congregação do Oratório também se afirmou como instituição ligada à riqueza local.
6. Criação canônica da Venerável Ordem Terceira do Recife
A Venerável Ordem Terceira da Penitência do Padre Seráfico de São Francisco do Recife foi fundada canonicamente em 12 de junho de 1695.
A oposição da Ordem Terceira de Olinda atrasou a criação, mas a intervenção do custódio Frei Jácome da Purificação junto à Congregação na Bahia e ao Conselho Ultramarino em Lisboa viabilizou a instituição da Ordem no Recife.
Em 26 de novembro de 1695 o Capítulo na Bahia confirmou a ereção e nomeou Frei Jerônimo da Ressurreição comissário.
Entre 12 de junho e 31 de dezembro de 1695, 138 irmãos e 38 irmãs tomaram o hábito.
7. Construção da capela dos Terceiros e financiamento
Em 1696 foi lavrada a escritura de doação do terreno para a capela dos Terceiros.
A bênção da pedra fundamental ocorreu em 13 de maio de 1696, com Frei Jácome, o bispo D. Francisco Lima e o governador Caetano de Mello e Castro presentes.
A obra ficou a cargo de Antônio Fernandes de Mattos e foi concluída rapidamente (1696–1697), sendo inaugurada em 15 de setembro de 1697.
O financiamento provém largamente dos recursos dos “mascates”: jóias da Mesa, esmolas e doações de irmãos como Joaquim de Almeida e Luís Cardoso, além de serviços oferecidos pelo próprio Mattos.
8. Perfis dos fundadores
1. Luís Cardoso
Pouco documentado nos tratados genealógicos, Luís Cardoso foi um homem de cor parda que começou como escravo (registro em 1664), comprou a alforria trabalhando como caixeiro e tornou‑se rico exportador de açúcar.
Faleceu em 1724, deixando mais de trinta contos de réis à Ordem Terceira.
Sua condição de pardo e o estigma do trabalho manual provavelmente impediram sua eleição para cargos de destaque, embora a riqueza tenha permitido flexibilizações nas regras de admissão.
2. Joaquim de Almeida
Natural de Vila Nova de Gaia, Joaquim de Almeida chegou ao Recife nos anos 1670 e ascendeu de criado a comerciante de grosso trato.
Dispensado dos “defeitos mecânicos” pelo rei em 1689, ocupou cargos públicos locais, serviu como capitão de ordenanças, juiz e ouvidor, financiou o “partido do Recife” e foi o primeiro vereador na instalação da câmara (fevereiro de 1710).
Foi o primeiro irmão inscrito na Ordem Terceira do Recife e exerceu o cargo de ministro em vários mandatos, liderando a resistência do partido mercantil nas sedições políticas.
3. Antônio Fernandes de Mattos
Nascido em 1640 no Minho, Mattos chegou como mestre pedreiro e tornou‑se construtor, contratador de obras públicas, cobrador de impostos, capitão de fortaleza, financista e comerciante.
Projetou e edificou obras públicas importantes (Casa da Moeda, pontes, molhe do porto, fortaleza da barra) e foi grande benfeitor de igrejas e conventos do Recife.
Admitido na irmandade franciscana em 1695, recebeu o hábito da Ordem de Cristo e foi ministro sucessivamente até sua morte em 24 de agosto de 1701.
Seu testamento beneficiou amplamente a Ordem Terceira, que passou a arrecadar dízimos e a financiar missas por sua alma por décadas.
9. Decoração, artistas e adições posteriores
Entre 1697 e 1700 iniciaram‑se intervenções que transformaram a capela numa das jóias do patrimônio colonial: talha, ornatos e painéis foram executados por artistas locais e contratados como Luís Machado, Antônio M. Santiago e José Pinhão de Matos.
Compras de cedro, folhas de ouro, painéis e entalhadores ocorreram entre 1699 e 1700; obras decorativas continuaram até pelo menos 1724, com destaque para azulejos de Antônio Pereira (1704) e pinturas de mártires franciscanos (1707–1710).
Vários ofícios participaram das obras; alguns artífices tornaram‑se irmãos da Ordem.
10. A “Capela Dourada” e o seu significado
A capela, conhecida como “Capela Dourada” pelo abundante ouro aplicado na talha, foi erguida antes da elevação do povoado à vila (fevereiro de 1710).
Constitui expressão do poder econômico e simbólico da comunidade mercantil do Recife: simboliza a estratégia política (Joaquim de Almeida) e a grandeza magnânima (Antônio Fernandes de Mattos) dos “mascates” em ascensão na sociedade colonial.
Conclusão
A Capela Dourada da Ordem Terceira do Recife é testemunho material e simbólico da ascensão dos “homens de negócio” no Recife colonial — sua construção, financiamento e decoração expressam a mobilidade social obtida por mercadores reinóis e seus vínculos com a restauração da fé católica e com as disputas políticas entre Recife e Olinda.

















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